O ato sexual como método mágico


Não fiz esse texto para discorrer das terminologias sobre a sexualidade mecânica freudiana. É uma dissertação sobre a aplicação e interação de magia e sexo. Por que esse assunto ainda incomoda tanta gente? Primeiramente, o Brasil está muito, muito longe de ser o país moderno que gosta de dizer que é. O mesmo país que põe mulheres seminuas em estandartes no carnaval, cria leis contra amamentação de bebês por acharem imoral. O mesmo país que exibe novelas com teores promíscuos em horário que evidentemente crianças das mais variadas idades estão na frente da tv, bani programação infantil por dinheiro e apadrinhamento e se alia a políticos da mais baixa moral e caráter – noutras palavras, nosso país sofre da doença da hipocrisia.

Os exemplos são inúmeros e falar deles é desnecessário, ficaríamos discorrendo disso por horas num assunto triste e fora de contexto. Esse não é o foco. O fato é que sexo (falar, praticar, educar, etc) é um tabu para muitos. Magia é outro tabu. Logo, teríamos a união de dois tabus, resultando num tema do qual não se aprofunda pelos laços (ou coleiras) do cristianismo, que reprime qualquer tipo de satisfação, através da dogmática cartilha de prazeres permitidos onde só o penitente alcança a salvação. Penitência por sexo? Culpa por sexo? Isso são vestes que não cabem em bruxos, que não sentem a vida como um castigo, tampouco não veem as boas coisas da vida, que não custam dinheiro, numa tabela de preços de penitencia. A felicidade nos mais simples e variados âmbitos é quase um dever para o bruxo. Se está ao alcance da mão ele estende o braço. Se esta atrás de uma parede ele a derruba. Mas isso tudo ainda não tem ligação com a conexão magia–sexo.

Por vezes esse é o nicho mais desconhecido e fantasiado pelos leigos não bruxos, muitas vezes confabulando teorias totalmente irreais, e por vezes assustadoras como sexos com demônios, bestialidade e orgias promíscuas, sem jamais terem se perguntado o quanto o seco é poderoso e sagrado para um bruxo. O problema do sexo para algumas pessoas, é que elas crescem ouvindo dizer que ele vem numa pacote fechado, que não pode ser desmembrado por nada ou combinado de outra forma. O pacote amor-paixão-sexo, seria o único e perfeito modelo aceitável. Não podemos negar que de fato é bom, mas ao se tornarem adultos, descobrem que as coisas não são bem como nos sonhos de filmes, tudo é mais complexo e o enredo da vida é cheio de reviravoltas inimagináveis.

Ainda sim, negam e propagam o conto, enganando a si mesmo e aos próximos, e ninguém tem coragem de admitir que as histórias precisam ser reescritas. Muitos usam o sexo como entretenimento, diversão, trabalho, saúde, chantagem, namoro, jogos eróticos, submissão, etc. Uma infinidade de coisas, nem todas boas nem todas ruins. O bruxo é claro, assim como inúmeros aspectos de sua vida pode usá-lo ligando-o a magia. O tema está longe de ser novo, e pessoas que leem muito sobre ocultismo sabem que isso é razoavelmente comum para muitos. A naturalidade disso vem do fato de que para o bruxo pagão não há medo ou preconceito sobre os aspectos da vida: tudo pode ser sagrado e natural tanto quanto qualquer outra parte da vida, e cheio de energia: o nascimento, o florescimento, o envelhecimento e a morte. O trabalho, a alimentação e tantas outras coisas. Não haveria como banir o sexo dessa lista.

Ato comum à vida de muitos onde interagem obviamente através da relação (mesmo a solitária), onde através das energias da interação e das alterações da psique durante o ato, direciona-se as energias oriundas para o intento em si, que pode ser um trabalho específico, um ritual, ou procedimento, em especial durante o ápice sexual, onde as barreiras do consciente e inconsciente cessam por um momento. Ressalvo apenas aos leigos mais generalizadores que : “nem todo sexo é mágico nem toda mágica tem sexo.” Não existe uma cartilha de como fazer isso caso queiram saber, e os poucos livros sobre o tema foram escritos em parte com base em experiências empíricas, muito semelhantes ao de qualquer outro bruxo. Os intentos são tão variados que perderiamo-nos tentando discorrer de apenas uma lista básica. Conexão com o sagrado superior e instintivo primário, união de forças, celebração de bodas de uma divindade, coleta e direcionamentos energéticos, contemplação, subjugação, “procriação”, equilíbrio e equalizador energético, e uma infinidade de intentos mais. Apesar desse texto não ser um manual para o processo existem coisas que devem ser levadas em consideração:

• Ambos devem estar de acordo que o ato praticado será além de um ato sexual, um ato magico.

• Um roteiro pode ser descrito antes, fora do ambiente para evitar improvisos e imprevistos. Diferentemente do sexo casual, o sexo ritual, pode seguir um cronograma.

• Ambos devem, se possível, estar focados no mesmo intento, facilitando o direcionamento da energia.

• A relação instintiva e mais primitiva guiada pelos instintos carnais e animalescos são tão validas quanto os de elevação tântrica: apenas energias diferentes vindas do mesmo ato, que podem ser trabalhadas de formas diferentes.

• Ambos devem estar de acordo e serem francos e sinceros um com o outro, acordando em interromper o ato se algo errado acontecer. Não somos máquinas. Somos seres com sentimentos, e tudo muda o tempo todo. Se algo ruim acontecer, sejam sinceros e interrompam o ato se necessário.

• Não tentem fazer nada sem conversar sobre o assunto de forma clara e franca: surpresas sexuais podem ser encantadoras ou constrangedoras dependendo do nível de empatia dos envolvidos.

• Um ato mágico-sexual é o que é. E não é um contrato vitalício, um pedido de compromisso, um favor ou desfavor. Essas coisas, se envolvidas com sexualidade, devem ficar para relações fora do ato mágico (sejam sexuais ou não).

• Só deve praticar o ato quem realmente está preparado para isso, tendo antes simulado mentalmente, treinando a mente e o corpo.

• Se não fizer parte do contexto, deve-se evitar entorpecentes, afinal o ato sexual magico é também sagrado em muitas circunstâncias e exigem mente limpa e livre de alterações metabólicas.

• Evite exageros de qualquer parte e não se julgue ou julgue quem esta com você. O ato em si é também a interação de duas pessoas, no exercício de uma atividade mágica delicada e poderosa. Moralismo e tabus de outras culturas devem ficar fora desse momento.

• Jamais faça o ato por imposição, medo, obrigação. Além de um destrato como pessoa, isso inutiliza o ato em si, que ficaria repleto de negativismo. O abuso não deve ocorrer jamais, lembrando que a liberdade é direito inegável seu e de outra pessoa, impossibilitando que um obrigue a outro a fazer algo que não queira. Em casos graves, deve-se recorrer se necessário à justiça, caso isso se torne uma forma de violência.

• Conhecimento acerca da energia kundalini, yoga, respiração, ervas, incenso, óleos, acupressura, musica e sonoridade, etc. podem fazer parte do leque disponível para elevar o espirito e o corpo. São só algumas dicas, mas não um manual. A sexualidade assim como inúmeros aspectos da vida variam de pessoa para pessoa, e seria absurdo ter num texto respostas para todas as faces da sexualidade do mundo. Quanto à sexualidade heterossexual, por exemplo, fica fácil a conexão com a egrégora macho-fêmea divina, resultando no ser completo, capaz de realizar incríveis feitos mágicos.

Caso não esteja preparado não arrisque: é uma experiência por vezes complexa e dramática, com a qual algumas pessoas não estão (e não precisam estar) preparados. Existem opções para aqueles que acham o método inviável. Nunca é demais lembrar : protejam-se sempre. Amor, magia e paz para todos.

#Sexo #Bruxaria #Rituais

© 2020

Arte, Magia & Liberdade 

Criado por Lua Valentia 

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