A Bruxa, o Diabo e o Infinito


A imagem do bode no cartaz do filme me atraiu como um buraco negro atrai a luz. Fiz uma rápida avaliação do trailler no youtube e pronto, meu alerta de obra prima disparou. Não tive dúvidas, liguei para meu parceiro de filmes esquisitos, um cabalista talentoso e parceiro filosófico, e disse: "vamos ver A Bruxa?".

Na sessão minhas suspeitas se confirmaram. Diante da natural aversão do público na sala de cinema (um comportamento comum do populacho diante das coisas estranhas), o talento do diretor estava atestado. Escondidas na narrativa estavam dezenas, centenas de referências ocultistas que só poderiam ser captadas por quem tivesse uma longa leitura desses temas. O filme trata a bruxaria dentro do senso comum que o povo tinha (e tem) da bruxaria e das antigas artes pagãs. É tudo coisa do diabo. E é, de fato. Mas o que é o demônio se não aquilo que está além de nossas pequenas fronteiras, que nos causa medo, terror. Chamamos de demônios aquilo que não conhecemos, que está fora da cultura, das religiões oficiais, do senso comum, da ética e da moral consentida. Além destas nossas cercas, está lá a bruxa, a loucura, a mulher. Diante desta visão aterradora, puxamos nosso Malleus Maleficarum, nosso Corão, nossa Bíblia e corremos os dedos temerosos pelas páginas. Lá esta ele, Satanás. Deus me livre. Ridículo, idiota, burro, puta, vaca...BRUXA.

Esta perspectiva é a perspectiva do filme. É um mergulho na mente fantasiosa dos temerosos, tal como Sítio do Pica Pau amarelo é um mergulho genial e fantasioso na cultura popular brasileira dos campos e das fazendas. A Bruxa é também uma narrativa sobre o mal, desta vez o verdadeiro mal, a perversidade estratégica, a falta de coração e todas essas coisas que eram atribuídas àquelas pobres mulheres isoladas com suas ervas, servindo os homens que lhe atiravam as primeiras pedras. É curioso como tanta maldade e inteligência estratégica eram atribuídas às "bruxas", que eram mulheres simples e muitas vezes ignorantes. Mas claro, não eram apenas elas, era o diabo através delas. O general da maldade muito preocupado com a vidinha estúpida das pessoas.

Na sala de cinema, meu coração acelerou, fiquei angustiado com o sofrimento daquela família, com a perdas dos filhos, com a fome, as orações ingênuas, a religiosidade rasa e superficial. Paradoxalmente tudo isso é o que permite a ação do mal de forma escondida e misteriosa. É a nossa ignorância que permite o mal, assim como o extremismo religioso da família do filme foi aquilo que os levou para os braços do mal. Aqueles que são assolados pela má sorte raramente aceitam que essas coisas podem ter sidos causadas por eles mesmos. É preciso dizer: "a bruxa está solta". É preciso qualquer culpado que não seja nós mesmos. Dizemos: Deus nos livre do mal, da inveja, da maldições. Mas não fazemos como Salomão, o mais sábio dos homens, que pediu a Deus sabedoria e que teria escrito um demoníaco grimório de feitiços (as Clavículas de Salomão na verdade, parecem ter sido escritas na Idade Média, mesmo assim fazem parte da tradição cristã e nunca são citadas em uma igreja).

No filme, surgem os familiares, as vassouras, chapeuzinho vermelho e seu suposto lobo, a maçã envenenada, os ritos de sangue e morte, o sequestro de crianças e bebês, a iniciação mística, o êxtase e a catarse. Mais ainda. Na jovem candidata à bruxa surge o inevitável chamado da sexualidade e o surgimento do "instinto de infinito", carinhoso nome que dei à atração inevitável para aquilo que não conhecemos, que nos atrai de forma irresistível para a "floresta do não-ser", lá onde está a casa da bruxa. Tudo aquilo que não pode ser (que não deveria ser) está lá nesta floresta com suas bruxas e filósofos perdidos. Lévinas, um filósofo que amo, chamou esse sentimento de Rosto, que é a visão aterradora do Infinito que olhamos pela janela de nossa casa de conceitos e batemos a porta com medo. Valei-me Deus, vade retro Satanás.

Curiosamente, toda essa violência e maldade atribuídas às bruxas e seu consorte, o Diabo, nunca encontrei nessas pessoas que caminham pela floresta pantanosa. O filme recorre a este esteriótipo de forma irônica e propositalmente. O diretor parece estar tirando um sarro com o público superficial que claramente não lhe interessa. Mas já encontrei muita injustiça, tristeza e maldade entre aqueles que julgam saber (dentro de suas pequenas cercas sagradas, suas clareiras na floresta). Não foram os cristãos que queimaram bruxas no passado? Não são os islâmicos que apedrejam mulheres e cortam gargantas no deserto até hoje? Não são os pais religiosos que negam suas filhas grávidas? Leia o Malleus Maleficarum e veja as desculpas que eram dadas para estuprar e matar jovens lindas, cuja atração sexual só poderia ser coisa do demônio. Não apenas o inferno são os outros. O demônio é o outro, nunca minha fraqueza, minha falta de dignidade e nobreza. Para esses o feminino não é sagrado, mas demoníaco.

Não há duvidas, o diretor do filme foi deliciosamente irônico. Para o público raso fica a mensagem: "Cuidado com a Bruxa!". Senti até um certo rancor nas linhas gerais da narrativa, uma certa vingança melancólica. Quem é este tal de Robert Eggers? Nunca ouvi falar e já o amo. O filme foi aclamado pela crítica e tornou-se cult instantaneamente, ainda que não tenha feito muito sucesso popular, claro.

Poucos estão dispostos a tirar suas roupas formadas por vários tecidos de conceitos e religiões e adentrar nesta floresta caótica, no Infinito. O "chamado do Diabo" é assustador, pois implica na ideia nietzschiana de construção de seus próprios valores (e o que é o dionisíaco de Nietzsche se não render-se aos instintos proibidos pela cultura, que no fundo são fonte da vida). Será o medo do demônio, o medo da bruxa, o medo da própria vida? Raramente as pessoas adentram nessa floresta por conta própria. A maioria são levadas pelo desespero, quando suas vestes conceituais estão totalmente rasgadas e destruídas, quando então se despem e escutam a voz tranquila que lhes pergunta: "você gostaria de viver deliciosamente?". A sessão acaba, as luzes acendem. O sujeito ao meu lado diz: "ridículo". Nem liguei, todos estão no seu devido lugar, amém. Eu olho para o meu amigo que ainda está calado e surpreso e a única coisa que pude dizer foi: "brilhante".

Este texto é dedicado a uma bruxa, Lua Valentia.

#Cinema #Crítica

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Criado por Lua Valentia 

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