A Sacerdotisa da Carne


“Abençoados são aqueles que vigiam as mais escuras horas da noite dos séculos”

  • Maria de Naglowska

Os ventos gélidos que sopravam na Rússia no fin-de-siécle traziam ruína às tradicionais estruturas de poder, a influência da igreja minguava em uma era imperada pelo progresso científico, taças de champagne eram esgrimidas nos saguões das mansões de uma decadente aristocracia enquanto niilistas e sovietes conspiravam contra uma monarquia impotente que devorava a si mesma. A doutrina secreta de Helena Blavatsky era comentada nos jantares da mais alta nobreza, espiritualistas entretiam multidões com suas sessões onde vozes eram dadas aos mortos, não mais contentes com suas sepulturas, mas que ainda assim cresciam em números exponencialmente com a guerra contra o Japão (1904-1905), um monge louco perambulava pelos corredores do palácio dos Romanov e um Outubro vermelho estava por vir. “Uma charada embrulhada num mistério dentro de um enigma” foi como Winston Churchill descreveu essa terra vasta e fria.

Em 15 de Agosto de 1883, em São Petersburgo, nasce uma herdeira dessa estranha era. Oriunda de uma proeminente família czarista, Maria de Naglowska teve a mais sofisticada educação que uma mulher poderia ter em seu tempo. Ela rompeu os laços com sua família ao se apaixonar pelo músico sionista Moise Hopenko, com quem se mudou para Berlim. Em 1910, ele abandona a pobre jovem para viver na Palestina, deixando-a com três filhos, ela sobrevive se tornando jornalista e professora, seus textos radicais eventualmente lhe rendem a prisão.

Já em 1920, ela conhece o controverso filósofo esotérico Julius Evola, cujas idéias até hoje exercem pesada influência sobre correntes políticas reacionárias e altamente tradicionalistas; correm ainda rumores de que ambos tenham sido amantes, isso não se sabe ao certo, mas sem sombra de dúvida os dois se mantiveram associados por bastante tempo. Em 1930, Maria se muda para Paris e se mantém dando palestras sobre magia sexual, palestras essas que foram atendidas por grandes nomes da vanguarda artística da época, como Willian Seabrook, Man Ray e Andre Breton, que a levaram a inspirar e ser inspirada pelo movimento surrealista. Essas palestras eventualmente possibilitaram a concepção da sociedade iniciática Ordem da Flecha-Dourada.

Sua retórica metafísica utilizava amplamente simbolismo satânico, ela própria definia a si mesma como uma “mulher satânica”, mas alertava: “proibimos nossos discípulos de imaginar Satã como um ser que vive fora de nós, pois tal idéia é própria para idólatras, mas reconhecemos que seu nome é real”.

O Espírito Santo era, para Naglowska, essencialmente feminino, a Grande Mãe apaziguava a guerra entre Deus e Satã através de cerimônias sexuais. Javé era, dentro desse contexto, a essência da própria vida e o Diabo representava uma morte simbólica através da renúncia de toda a materialidade, toda a mediocridade, a busca pela transcendência do mundano. Em sua mais conhecida obra, The Light of Sex (1933), ela dizia: “combatereis em vós próprios a selvajaria, dominando todas as emoções: as que provêm da carne os sentimentos e da Visão das coisas novas. Em todos os momentos estareis frios por dentro, mas desempenhareis, com perfeição, exteriormente o vosso papel na comédia humana, respeitando escrupulosamente o “Código do Histrão” que vos ensinaram na Corte. sempre aprazíveis, sereis indiferentes para com todos. Não preferíeis nem amareis ninguém, pois amar é atrair a imagem fluídica de alguém, de um outro. Ora ao atrairdes a imagem de um homem ou mulher profanos destruís a obra de purificação negra que empreendestes e está escrito: o que quiser vir a mim, deve abandonar pai, mãe e irmãos e irmãs, filhos e amigos. O Liberto da obediência da Corte dos Cavaleiros da flecha de ouro só têm irmãos aqui.”

É dito que o poderes psíquicos de Naglowska eram extremamente potentes, em 1935 ela teria previsto sua própria morte e por isso recusou reimprimir suas últimas obras, The Light of Sex e The Hanging Mystery, teria ainda dito aos seus discípulos que não conseguiriam divulgar seus ensinamentos por três gerações.

A história de sua vida foi incomum, exuberante, e ainda assim seu nome infelizmente parece sucumbir ao esquecimento nos anais da história do oculto. Transgressora ao extremo, contrariou todos os paradigmas esotéricos existentes na época em que viveu para transmutar o papel da mulher na magia cerimonial, deificando-a como redentora da humanidade, portadora de seu próprio poder sexual, livre e brilhante em si própria.

Por: Caio Domingues

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