Empoderamento LGBT e magia podem andar juntos?


Desde que eu comecei meu trabalho público com A Viada Chama Púrpura, a grande dúvida da maioria das pessoas (depois de “porque você optou pela palavra ‘viada’?”) é qual a relevância de um trabalho de empoderamento, seja ele qual for, atrelado à magia?

E eu respondo com sinceridade. Numa escala cosmológica, nenhuma. Nada do que acontece neste pequeno planeta verde azulado na borda ocidental desta galáxia tem relevância numa escala cosmológica; isso, no entanto, não quer dizer que um magista não considere importante conseguir um carro novo, encontrar iluminação espiritual ou mesmo apenas se dar bem em baladas vez em quando.

Num ponto de vista individual, um trabalho de empoderamento LGBT ajuda ao magista que faz parte deste amplo guarda-chuva abrangido por esta sigla, entre outras coisas de menor importância, a não morrer, no país que mais mata LGBTs no mundo, e, o que eu acredito ser ainda mais importante que isso: a não odiar a si mesmo. E claro, apesar de este não ser o foco do texto, círculos de empoderamento feminino, além dos motivos já citados aqui, ajudam as magistas a não apanharem de seus cônjuges; acredito que auto-sobrevivencia é, por si mesmo, um argumento irrefutável para o porque de se misturar magia a estes assuntos.

Isto não encerra este texto, no entanto, é preciso mais que mera sobrevivência para que nós, estes seres descendentes de primatas (tão extraordinariamente primitivos para ainda achar que relógios digitais são uma grande idéia) acreditemos que vale a pena viver.

Eu venho de um sistema mágico em que o autoconhecimento é o pilar de toda a construção de um magista, o trabalho com a sombra é, antes de tudo, o elemento crucial para a formação de um iniciado wiccano. Heteros quase nunca percebem isso, e o motivo principal é porque sempre foram ensinados a encarar seu desejo pelo sexo oposto como uma evolução natural que não requer reflexão, mas a sua sexualidade é um ponto extremamente importante de quem você é.

Mais que isso, a sexualidade em geral, a forma como você formou certos gostos(eu, por exemplo, sou podolatra) e a forma como você adquiriu uma atração por certos arquétipos de personalidade são questões que, em muitas pessoas, pertencem a sombra, pertencem a aquela pequena parte de si que a gente prefere não olhar porque não quer enfrentar, não quer saber.

É muito mais fácil acreditar em: “eu me sinto inseguro em todos os relacionamentos porque homens são babacas”, do que enxergar em si mesmo um complexo iniciado pelo desejo de reconhecimento e de gerar orgulho na figura materna, e entender que o desejo de reconhecimento frustrado nos relacionamentos nada mais é do que uma projeção deste desconforto natal.

Em termos de sombra, ser LGBT ainda gera uma gama de outros processos, algumas pessoas são afeminadas porque secretamente encontraram um jeito não consciente de punir a si mesmos, enquanto que outras pessoas não o são justamente pelo mesmo motivo; o que eu quero dizer é que estar dentro dessa sigla gera uma carga de sofrimento — por conta da sociedade — que termina por minar a capacidade do individuo de autoaceitação e de apresentar a verdadeira expressão de si no mundo.

Em última instância, fazer parte de um grupo socialmente excluído mina o poder pessoal e, numa linguagem mais comum a outros sistemas, isso pode desviar o magista de sua Verdadeira Vontade; aprender a lidar consigo mesmo, a encontrar em si aquilo que lhe faz você é uma chave para aumentar o poder mágico. Um círculo de empoderamento é importantíssimo neste caso.

Phil Hine, um conhecido autor de livros sobre Magia do Caos, tem um texto chamado: “sodomia como realização espiritual” em que ele descreve a experiência de gnose de ser penetrado por seu amante, em que ele descreve a experiência de um processo espiritual dentro de um sexo gay. Para um leitor desatento, isto é apenas mais um texto qualquer sobre magia sexual, mas não, este texto é o exemplo de algo ainda raro na magia, um texto sobre como um LGBT se relaciona com a magia.

É estranho para um hetero cis pensar isso, mas pense num outro paradigma, num outro ponto de vista por um instante. Pesquise por poder do sexo no google, pesquise sobre feitiços para conseguir alguém, pesquise por rituais wiccanos em conjunto e você irá encontrar certamente imagens de casais heterossexuais cis, provavelmente fazendo sexo vaginal, e nada sobre outras formas de existência.

Para um LGBT é como se sua expressão devesse se encaixar nesse padrão ou ele é forçado a descobrir seu próprio meio num ambiente Ht-cis centrado. O que acontece geralmente é o foco nas similaridades e correspondências e o esquecimento das diferenças, isso é uma forma válida, mas que deixa de potencializar muita coisa que poderia ser explorada pelo magista.

Vamos ao exemplo de uma maga transexual que não seja operada; ela é uma mulher, não há dúvidas disso, e ela encontrará diversos textos falando de algumas potencialidades femininas dentro da magia, alguns usos mágicos de coisas tipicamente femininas, como a menstruação; certamente parte deste conhecimento servirá para ela, a outra parte não. Ela não menstruou, provavelmente jamais menstruará, e lhe parece que ela tem um recurso feminino a menos para explorar na magia.

Isso não é verdade. Não existe literatura sobre, mas o que eu estou defendendo aqui é que há potencialidades mágicas em ser uma mulher com pênis. Não um magista que usa de sua masculinidade dentro da magia, não uma mulher que tem algo masculino dentro de si e pode usar deste poder enquanto homem. Mas uma magista que é uma mulher, com um pênis de mulher, com uma capacidade fálica — este símbolo tão associado ao masculino — que é, na verdade, feminina. O que nos falta é uma literatura que explore as potencialidades mágicas disto, e parte desta ausência, é que constantemente as pessoas sequer percebem que este é um ponto que merece ser explorado.

Eu venho de um sistema imanente de religiosidade, em que não há uma diferença real entre o material e o espiritual, é mais do que natural para eu perceber que se eu sou um homem que — por alguma razão — prefere outros homens e se eu acredito que há uma causa biológica nisto, esta mesma causa biológica, esta mesma expressão de quem eu sou, me trás propriedades mágicas que eu poderia explorar, que um heterossexual teria de maneiras diferentes.

Uma ideia perfeitamente derivada do simples: eu enquanto fulano tenho habilidades inerentes diferente do Pedrinho de Oxum; uma ideia que visa, antes de tudo, estimular a produção escritas de magistas interessados em escrever para gays, numa produção de uma wicca que pense o modos não homem-mulher cis de pensar, num tantra gay, numa magia do caos que produza sobre o tema.

No mais, eu digo que sim, o empoderamento LGBT é um ponto afim da magia, não só porque a magia é um instrumento que pode — e deve — ser usado para o aprimoramento pessoal e obtenção dos desejos, mas porque se empoderar enquanto pessoa é, no fim das contas, adquirir poder mágico. Numa escala cosmológica nada importa. O que é importante para você é aquilo que você deve explorar magicamente.

#Wicca #philhine #Sexo #Poder #empoderamento

© 2020

Arte, Magia & Liberdade 

Criado por Lua Valentia 

  • clube de autores
  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube
  • Instagram
  • SoundCloud ícone social
  • Spotify ícone social