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Magia, auto sabotagem e higiene mental.

Atualizado: 22 de fev. de 2022


Imagine a cena: O altar ricamente preparado, incensos fumegando, cristais e velas. Imagens de diversas divindades sendo homenageadas com flores, frutas e bebidas. A bruxa se prepara, tem em mãos a varinha e o punhal. Encapuzada em sua túnica preta, bane todas as energias opositoras, abrindo um amplo e poderoso círculo mágico, que estabiliza as energias do local e cria as condições ideais para a execução da tarefa mágica. Um sigilo ricamente ornamentado é depositado no altar; palavras em uma língua estranha são pronunciadas (seria uraniano barbárico!?), dando início a uma série de gestos, posturas e mantras que preparam a energização e ativação do sigilo. A bruxa passa então a uma profunda contemplação deste sigilo, com o objetivo de sustentá-lo em seu pensamento até que não reste mais nada em sua mente, apenas o sigilo. Está feito.

Após realizar os banimentos finais e fechar o círculo, recuperando-se do estado alterado de consciência, a magista passa a consumir um pouco das oferendas do altar, aterrando-se e compartilhando com a divindade um pouco de sua fartura. Neste momento, um pequeno pensamento surge em sua mente: "Será que o ritual funcionou?"


Nem preciso dizer que todo ritual descrito acima pode ter sido catastroficamente comprometido por este último e singelo pensamento: "vai mesmo funcionar?" . Uma das grandes catalisadoras de toda a dualidade psicológica que é experimentada, e imposta a todos os seres existentes; a dúvida é um excelente guia para muitas coisas da vida, quando utilizada com método e segurança. No entanto, quase sempre acaba por se tornar uma espécie de veneno das práticas mágicas, quando insiste em permanecer, por assim dizer, no caminho das intenções mágicas.


"Se quer a gnose, prepare-se para a guerra." Ironias à parte, a expressão supracitada, adulterada do dizer atribuído a Flávio Vegécio, aponta para a "guerra mental" que se inicia no espírito de qualquer magista que busca o estado de consciência alterada. Qualquer um que trilha o caminho sabe muito bem que até o estado alterado ser compreendido, há um longo processo de dúvidas e ambiguidades. Não é gratuitamente que podemos observar na história da magia, que o estado de consciência alterada é amplamente descrito em praticamente todas as práticas mágicas e religiosas. Por mais distantes que possam ser consideradas umas das outras, o horizonte das práticas mágicas sempre conserva um momento em que os envolvidos no processo ritualístico precisam realizar algum tipo de exercício prático que os coloquem em condições de atuar diretamente no que está sendo mobilizado com ato mágico. Esse momento é onde entra em cena o estado alterado de consciência.


O que você quer na magia? Quero ganhar na loteria, quero encontrar um amor, quero conhecimento, quero parar de fumar, quero emagrecer, quero arrumar um bom trabalho, etc. Múltiplas são as razões pelas quais se recorre ao mágico na tentativa de satisfazer algum dos desejos ou necessidades supracitadas.

Algumas dessas coisas parecem muito difíceis de se resolver, e a vida cotidiana tem sido cada dia mais impeditiva de alguma liberdade no que tange ao alcance de alguma forma de satisfação consigo mesmo. A magia do caos deveria ser mais fácil por ser mais livre, e quem diz isso se engana redondamente. Em minha visão, e isso não é novidade alguma, a magia do caos poderá, em vários aspectos, ser mais difícil que outras práticas mágicas.

Qual é o problema? Devemos dizer, por exemplo, que a liberdade não vem sem a responsabilidade. Se há mais liberdade no caos, é porque também há mais responsabilidade. Se você pode fazer qualquer coisa, é também por que poderá oferecer muito mais de si como pagamento. A lógica pode ser, em alguns aspectos, muito próxima das dinâmicas capitalistas com as quais estamos acostumados a lidar. Digamos que quanto maior a quantidade de dinheiro que você possui, maior será a casa, ou o carro que você poderá comprar. Quanto maior a sua possibilidade de acessar o capital, maior o seu lugar na fila do pão. Ok, a comparação parece um tanto quanto tosca, e foi pensada para ressaltar isso mesmo, já que aquilo que você "oferece" na magia do caos, nada tem a ver com dinheiro ou bens materiais. No entanto, o tamanho da sua "conta bancária" não é medido pela quantidade de gnose, até porque, isso não é exatamente algo que nós sejamos capazes de mensurar tão exatamente em termos numéricos, pelo menos não como fazemos com o dinheiro. E digo isso porque a gnose produzida a partir de um estado alterado de consciência pode ser muito mais mensurada por sua qualidade, do que a partir de sua quantidade. E aí entramos no conflito, na dúvida, a hesitação, que fazem parte da categoria dos veneninhos mentais que, por assim dizer, "sujam" a gnose que o magista tanto se esforça em produzir.


Em outras palavras, nada mais do que magia contra si mesmo. Quando se cria uma intenção mágica, o que parece acontecer, em termos práticos, é que o elemento intencional (sigilo, contrato com servidor, criação de forma-pensamento, etc.), será ativado apenas quando a parte inconsciente da psique for capaz de assimilar esta imagem, incorporando-a ao horizonte da possibilidade de manifestação essencial das linhas caóticas individuais. Isso equivale a dizer o seguinte, se você joga na mega sena e faz magia para aumentar as chances - caso seja bem sucedido no ritual - a nuvem etérea que circunda sua linhas mentais "jogará luz" sobre as linhas etéreas que ligam seu futuro "milionário" com a concatenação das coisas que existem. Isso é o que pode, em termos relativamente mensuráveis, tornar mais provável que você ganhe na loteria. No entanto, neste caso, existirá, inevitavelmente, muita poluição mental ao redor de um prêmio de loteria, pois muita gente está fazendo esse mesmo ritual mágico de povoar o universo astral com suas intenções, muitas vezes confusas, ainda que sequer saiba o que estão fazendo. Pense no seguinte, é muito provável que, em todas as vezes que você desejou algumas coisas de uma forma muito intensa, que esse desejo tenha gerado um efeito mágico, um resíduo existencial, uma forma pensamento rudimentar, em suma, qualquer coisa, possivelmente dismórfica, que possa ter dado algum traço existencial intencional para o seu desejo. Isso não significa, necessariamente, que essa criação mental tenha jogado a seu favor. Muita gente acaba sendo atormentado por suas próprias criações involuntárias. Mais uma vez, pense no seguinte, se você tem alguma idéia fixa em alguma coisa, e essa fixação te faz sofrer de alguma forma, pois é algo que você deseja muito, mas não pode ou não quer desejar, posso me arriscar a dizer que você, provavelmente, está produzindo um efeito mágico negativo sobre si mesmo. Pense nisso.


Vamos voltar ao assunto e pensar, por exemplo, no que é jogar na loteria: (1) Escolher uma série numérica. Todo mundo sabe que uma das formas mais famosas e antigas de se construir sigilos é por meio da interpretação de valores numéricos que podem revelar padrões geométricos. Quem joga está, de certa forma, construindo um sigilo. (2) Esse sigilo é ativado por um contrato, você paga para concorrer ao prêmio, uma oferenda para a possibilidade de receber um efeito positivo para si. Isso não parece um contrato mágico? Pois é, parece né. (3) Todos aqueles que jogam, colocam energias mentais conscientes e inconscientes, em maior ou menor grau, no sigilo, que é o bilhete de loteria. Muita gente chega mesmo a rezar, benzer, ou abençoar o bilhete, tentando aumentar as chances de ganho. Imagine uma guerra mágica onde todos os magistas pedem a vitória ao mesmo deus. Todos querem ganhar o prêmio, o que torna extremamente complicado organizar as linhas do éter no sentido de que estas possam se alinhar. O que resultará disso não será mais que ocasionalismo, o ganhador do prêmio continuará sendo uma pessoa aleatória, e sua interferência mágica foi perdida no meio de tanta bagunça.

Tá bom, mas como eu vou fazer magia sem desejar o resultado? Como é possível introduzir algo que altere as possibilidades do éter sem querer fazer isso? Poderíamos também pensar o seguinte, como eu posso jogar na loteria sem desejar ficar rico? Difícil né. Talvez uma pequena explicação sobre o fracasso mágico possa nos ajudar a compreender as ferramentas para o sucesso. Na magia, é possível fracassar de dois modos. Primeiramente, quando um ato de mágica intencional não consegue atingir o nível satisfatório de gnose, e o efeito mágico simplesmente não ocorre. Isso pode acontecer por múltiplos fatores, mas, principalmente, devido aos venenos mentais, insegurança, desconfiança, hesitação, expectativa, etc.

Em segundo, também é preciso considerar, e isso é mais comum do que parece, que o resultado de um ato mágico intencional seja exatamente o contrário daquilo que se pretende alcançar. E isso é mais complicado que a própria falha. Imagine que você quer fazer um feitiço para aproximar de você aquela pessoa que julga interessante, e acaba obtendo como resultado do feitiço o afastamento total dessa pessoa? É por isso que a nossa querida Lua Valentia insiste que todes realizem exames, e verifiquem se estão em dia com a saúde física e mental. Se você quer ficar rico, mas passa o dia reforçando negativamente o fato de que ainda é pobre, seu feitiço provavelmente vai sair pela culatra. A higiene mental favorece a fixação do conteúdo intencional no inconsciente; já uma mente poluída por culpas, anseios desmedidos, cargas emocionais muito intensas, correm grande risco de virar tudo de cabeça para baixo. Não me entendam como purista, não se trata de calar as emoções e desejos, pois eles são extremamente úteis ao magista, desejo e ódio são ótimos combustíveis, quando bem direcionados. A minha advertência diz respeito ao descontrole de tais emoções, que fracionam a vontade do magista, fazendo com que seus próprios desejos se oponham ao intento mágico.

Um exemplo muito claro disso é o protocolo do liber MMM. As primeiras etapas do treinamento são o que pode ser chamado de uma bela "faxina mental", que consiste em não fazer outra coisa senão preparar mentalmente o indivíduo para as práticas que envolvem silenciar a dualidade da mente. Por isso também é mais fácil usar magia para conseguir um bom emprego do que para ganhar na loteria. O mágico, na maior parte dos casos, atua apenas no espaço ínfimo que existe entre o que eu desejo, e o quanto consigo traduzir isso como intenção mágica, todo resto é eficácia simbólica (para o bem ou para o mal), produzida pela mente. O que estou dizendo com isso? Vamos pensar, por exemplo, em um ato mágico que envolva algum processo de auto-hipnose (muitos envolvem); uma parte considerável do processo é algo gerado pelo condicionamento provocado pela hipnose, que não é o que podemos chamar de mágico. No entanto, a hipnose abre uma "fresta" no inconsciente, o que aumenta, em termos numéricos, a possibilidade de que seu ato mágico seja, realmente, mágico.

Talvez seja por isso que Peter Carroll diz no Liber Kaos que um ato mágico deve ser feito com antecipação, enquanto a divinação deve ser feita na borda imanente do evento. O que estou dizendo? Tocar as linhas do éter é algo que demanda aguardar certo acoplamento posterior das linhas do caos ao intento mágico (quando ele é bem sucedido). A partir desse contato bem sucedido, a causalidade dos eventos começa a se estruturar na direção das probabilidades mais evidentes, guiando, por assim dizer, o intento até sua realização. É preciso dar tempo ao éter para que a "mobília" etérea possa ser reorganizada a partir das probabilidades inseridas pelo intento mágico. Isso não significa que feitiços de emergência não possam funcionar, o que estou apontando aqui é para a existência de condições mais satisfatórias ao sucesso de uma prática mágica.

Já um ato de divinação parece funcionar de modo contrário, e pode ser mais claro quando essas linhas já estão probabilisticamente organizadas. Um oraculista é também um medidor de probabilidades, que toca as linhas do caos com seu "instrumento de medição" (sistema oracular), observando as probabilidades que cercam essas linhas, revelando futuros ou eventos mais prováveis que outros. Uma previsão para amanhã tende a ser mais precisa do que uma previsão para um evento que pode ocorrer daqui a um ano. Logicamente, isso depende do evento que está sendo medido, e de uma série de fatores que podem alterar todas as variáveis, inclusive, a acuidade do próprio oraculista.


A moral da história para isso tudo é muito simples. Não ignore a base do treinamento. Tenho visto muita gente querendo, a todo momento, pular etapas. Cada etapa é significativa, e também é uma conquista, por menor que isso possa parecer aos olhos externos. O mágico se manifesta no interior de cada um, e só a partir disso é que pode, de alguma maneira, se manifestar objetivamente nesta realidade compartilhada.


Choyofaque!!

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