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Magia do caos e caos na magia: a divinização como tarefa mágica

Vivemos tempos estranhos. Para nós, caoístas, tempos estranhos podem também ser sinônimo de tempos interessantes. Digo isso não sem considerar uma pontada de medo em virtude do cenário do Brasil atual, cenário de grandes barbáries sendo cometidas em nome de narrativas discrepantes. O fato é que narrativas parecem ter a proeza de dividir seus aderentes ao que parece mesmo ser a própria configuração da existência de universos distintos que, embora estejam aparentemente sobrepostos, ainda sim exprimem alto grau de incomunicabilidade, algo que pode ser facilmente observado entre os indivíduos. Mas não é sobre isso que pretendo falar aqui diretamente, pois isso me parece ser apenas um reflexo da presença de poderes maiores que têm se configurado ao redor de toda nossa esfera mental. Muitos fatores podem ser arrolados como causas de tal conjuntura, por exemplo, os extremos políticos, sociais e econômicos, provocados e acentuados pelo capitalismo, que está entre uma das causas principais de tais eventos mentais, sobretudo, no que diz respeito a acumulação extrema de capital por algumas nações em detrimento de outras e, mais ainda, a concentração de renda completamente discrepante sendo colocado nas mãos de poucos indivíduos.

Temos assistido, conectados à internet, o surgimento de um novo Olimpo, de uma casta de pretensos super humanos, seres para os quais o dinheiro, aparentemente, abriu todas as possibilidades, para quem os limites impostos à toda vida humana, não são mais barreiras para seus anseios e realizações. Muitos desses indivíduos são capazes de controlar países, simplesmente por possuírem renda individual equivalente ao Produto Interno Bruto de muitas nações, ganhando e acumulando milhões de dólares a cada hora, simplesmente por existirem. Tais indivíduos foram capazes de construir para si máquinas de adoração estruturadas na associação de suas imagens com tudo aquilo que há de mais glorioso. Se o dinheiro fala mais alto, no momento em que eu me torno a própria imagem do dinheiro, torno-me, eu mesmo, um novo Deus. Basta que se observe o feed de praticamente todas redes sociais, todos estão inundados de aspirantes a deuses em busca de popularidade.

O fato é que já estamos contando quase 50 anos, ou mais, de contato com a internet. Muita gente pode considerar uma tolice dizer algo assim, mas é muito evidente que a internet não é algo outro senão a abertura de um gigantesco portal de novas possibilidades de manifestação, ou ainda, para ser mais direto, um novo universo que se abriu debaixo do nosso nariz. Se você tem em torno de 40 anos, provavelmente passou uma boa parte da sua vida sem ter contato com a facilidade e a praticidade de utilizar a internet. Eu mesmo posso dizer que a vida era completamente diferente. O que eu quero dizer com isso? Também me parece cada vez mais óbvio que nós, em nossa grande maioria, ainda não fomos capazes de compreender a amplitude das mudanças que nos cercam desde então. Obviamente, estou falando de mudanças do ponto de vista mágico. E digo isso porque, muitas vezes, esperamos que tais mudanças sejam bruscas, chocantes, e que agitem profundamente as estruturas basilares do universo no qual vivemos. Mas isso, normalmente, não acontece assim. Pelo contrário, toda manifestação é progressiva, começa aritmeticamente, e demora muito pra se tornar uma progressão geométrica. Toda mudança, transformação, ocorre primeiro de forma modesta, diminuta, e só após isso ocorrer é que o grande evento de transformação ocorre. Muitas vezes, sequer percebemos o início da mudança, dado o grau de sutileza na qual o processo tem seu início. Vamos pensar no seguinte, já faz quanto tempo que a natureza tem dado sinais sutis de que não está mais suportando o nosso modo de existência nesse planeta? Faz tempo né? Pois é. Mas só agora, com a ocorrência de grandes fenômenos catastróficos, grandes transformações no âmbito da natureza, como desertificações, tornados, furacões, tsunamis, e outras coisas do gênero, é que alguns grupos e setores da humanidade tem estado mais diretamente atentos a isso.

Você já parou pra pensar no quanto um efeito mágico pretendido pode provocar mudanças não esperadas nos horizontes de sua vida? E se eu te disser que, para ficar rico, será necessário que aconteça algo de muito ruim em sua vida? Ou ainda, que para conseguir conquistar algo desejado, vai precisar abandonar outra coisa?

Para obter o sucesso em alguma coisa, é provável que alguns efeitos inesperados tenham lugar. É comum ver muita gente afirmar que seus rituais não dão certo, que sua magia fracassa, que seus sigilos não são ativados. A verdade é que os pedidos de muita gente terminam sendo orientados por situações tão complexas que os resultados também vão envolver situações inesperadas que, muitas vezes, sequer são percebidas por aqueles que fazem tais pedidos. E digo isso pensando no quanto muitas pessoas se equivocam em suas tentativas de performar algum efeito benéfico para si.

Na maior parte dos casos, tudo o que é necessário para o sucesso é o trabalho consigo mesmo, como obra mágica. Tenho pensado muito em indivíduos que enfrentam situações muito agudas na própria existência; pessoas que assumem missões humanitárias muito grandes, tomando para si responsabilidades sobre populações inteiras, dando conta de cargas mentais e emocionais gigantescas, coisa que certamente destruiria muitos indivíduos despreparados, ou que se julgaram preparados, mas que fraquejaram em determinados momentos. Ou ainda, para usar um exemplo que pode ser mais palatável a nossa compreensão, basta pensar em um bilionário. O que é um bilionário? É um indivíduo que tem uma quantidade pornográfica e exorbitante de dinheiro. O que nós não percebemos diretamente é o quanto a carga mental contida nesta rubrica é intoxicante, pois não é muito difícil observar pessoas que são (ou se tornam) muito ricas e, no entanto, acabam se auto-destruindo e destruindo tudo aquilo o que está ao seu redor, exatamente por não serem capazes de controlar o fluxo mental, emocional, que está relacionado a essa quantidade absurda de dinheiro. Imagine o seguinte: se as pessoas da sua vizinhança te olham torto, você já recebe as energias negativas disso. Agora imagine receber o fluxo mental de milhares de pessoas que simplesmente concebem que deveriam estar no seu lugar, por supostamente serem mais merecedoras de toda a riqueza que você possui. Estou usando esses exemplos para que possamos pensar o quanto é complicada relação de fluxo intencional daquilo que controlamos, e colocando isso em relação ao que nós não controlamos diretamente, pelo menos não imediatamente.

Como você espera ganhar na loteria usando magia, se este evento pode alterar de forma brutal diversos aspectos da sua vida que você mesmo desconhece? Todos nós, conscientemente ou não, nos definimos como indivíduos a partir de inúmeras situações e relações, por meio das quais somos determinados com identidades, como formas, como definições. Tais determinações nos moldam para sermos e agirmos em conformidade a conjuntos modais que nós mesmos alimentamos e conduzimos em nossas relações de interseção com o que está ao nosso redor. Parece sempre haver um limite para o nosso agir, no entanto, este limite quase sempre é autoimposto, pois somos nós quem fundamentamos os conjuntos de regras por meio dos quais nos orientamos na dualidade. Muitas vezes, a experiência de mudar de vida é apenas uma fantasia alimentada, cuja interpretação é tão radical, que chega ao ponto de não ser crível a nós mesmos, que algo possa mudar desta maneira. Ser milionário, muitas vezes, embora seja desejado por milhões e milhões de pessoas, é também um tabu, já que também é possível considerar o horizonte das possibilidades de mudança a partir do conjunto de regras estabelecidas para os conjuntos moduladores da existência. Um indivíduo que tem certeza de sua feiura, jamais será bonito em qualquer hipótese. A semente mágica começa na integração entre a crença e a ação, em outras palavras, acreditar em algo e agir em conformidade com essa crença. Além disso, quebrar esses conjuntos padronizados é o primeiro passo para mudanças significativas na vida de qualquer indivíduo.

Quando alguém diz, por exemplo, que se ganhar na megasena não vai mais trabalhar, ou vai largar tudo e ir morar em um sítio, mas se esquecem de considerar que todos os seus conjuntos moduladores de existência podem não estar trabalhando nessa direção, pelo simples fato de que este indivíduo pode estar completamente imerso em em sua própria dimensão interna em um sentido diretamente oposto ao das consequências que ele concebe como decorrentes do fato de ganhar na loteria. É muito provável que, caso algo dessa natureza acontecesse, este indivíduo não teria condições iniciais de realizar tal mudança, sendo muito provável que permanecesse repetindo os padrões que estabeleceu para si durante um longo tempo até que, por ventura, adquirisse a capacidade de realizar alguma mudança significativa em seu próprio comportamento. O que eu quero dizer com isso é que não faz sentido esperar que as coisas aconteçam ao seu redor antes que certas modificações internas sejam realizadas. Ao contrário, parece mais lógico que as modificações internas sejam feitas, para que estas então provoquem as mudanças no exterior.

Viver entre os homens como um Deus, esta máxima do epicurismo me desperta muita curiosidade exatamente por sua proximidade ao que praticamos na magia do caos. Um dos grandes ancestrais daquilo que chamamos de cultura ocidental, o epicurismo imprimiu sua marca em diversas escolas de pensamento da antiguidade. Além disso, o que nos chama atenção também é o caráter rebelde das posições epicuristas. Conhecida como uma escola que teria estimulado seus praticantes a abandonarem aquilo que poderia ser considerado como educação formal, ou ainda uma educação para pólis, nos moldes da cultura clássica. Em outras palavras, estamos falando de uma escola de pensamento que está propondo um "deslocamento" entre o indivíduo e o corpo social que o constitui, e tudo isso em uma sociedade que simplesmente não concebe a humanidade como algo que possa ser separado da vida na cidade.

O epicurismo é uma das escolas do helenismo que marca essa virada, no sentido de transformar o indivíduo no foco principal de toda e qualquer operação relacionada a esta filosofia. A transformação derradeira pela qual se deve passar é uma transformação no indivíduo, que passa a ser o flerte principal com a divindade. Tudo isso já poderia ser suficiente para despertar a curiosidade de qualquer caoísta, visto que a escola epicurista parece ir em certa contramão daquilo que a educação clássica da antiguidade parece orientar.

Nesse sentido, conseguimos perceber uma semelhança ou contingência que pode ser considerada tanto a partir da magia do caos quanto a partir do epicurismo. Basicamente, é possível considerar que, com as devidas estratégias e preparações, um praticante de magia do caos será capaz de eliminar contingências aleatórias, ou ainda, probabilidades desfavoráveis, no sentido de favorecer o sucesso em cada uma de suas ações. Bom, não é disso que o epicurismo parece estar tratando, mas sim de uma preparação para vida que supostamente eliminaria falsas esperanças e temores inexistentes sobre divindades absolutas e destinos fatalmente inevitáveis. Esta preparação, no entanto, parece ser o tônus dominante em ambas as perspectivas que estou analisando aqui. O epicurista precisa aprender a se livrar da crença prejudicial, sobretudo, aquela que coloca diante dele um universo criado e governado por entidades superiores implacáveis, guias de um terrível destino inevitável. O magista do caos, por sua vez, precisa entender que, ainda que possamos considerar a existência e a permanência de tais divindades implacáveis, o controle que estas últimas possuem sobre os indivíduos é dado por eles mesmos. Em outras palavras, ambas as escolas parecem nos ensinar que a crença deve ser trabalhada como um instrumento, do mesmo modo que trabalhamos o nosso intelecto com a lógica, ou trabalhamos o nosso bíceps na academia, ou trabalhamos a nossa habilidade em desenho, em tocar violão etc. Há de se trabalhar aquilo sobre o qual o depositamos este valor tão importante na constituição da nossa psique, a esperança. Longe de ser apenas uma manifestação romântica, bucólica, de desejos muitas vezes impossíveis, ou de crenças absolutas em utopias, este sentimento, ou paixão, é o principal instrumento da nossa atuação no mundo, devendo, portanto, ser trabalhado no sentido de ser aprimorado e devidamente direcionado.

Você já se perguntou o quanto se dedica, simplesmente, em sustentar a permanência disto que você mesmo considera sendo este "eu"? A pergunta, a princípio, parece uma grande tolice. Afinal, o que mais eu poderia ser se não eu mesmo? No entanto, é fundamental fazer essa pergunta para todo aquele que propõe a revolução a partir de si, já que a maior das mudanças é exatamente aquela que se realiza sobre si mesmo. A partir disso, é necessário considerar que não há como determinar que tudo mude ao meu redor, sem que eu mesmo tenha que me transformar. É interessante que se faça disso um exercício, na medida em que podemos observar, com alguma prática, que muitas das repetições que praticamos em nossa vida, por mais inofensivas que possam parecer aos nossos olhos, são composições de elementos cruciais de nossa constituição íntima, seja daquilo que me torna algo melhor, seja daquilo que me torna em algo pior. O aperfeiçoamento, a transformação, a obra magica, seja lá o nome que vamos dar a esse fenômeno, tem em jogo o despertar de uma consciência de si que está acima desta compreensão rasa que temos a partir deste “eu”, que se configura como uma existência determinada pelo mundo e por tudo aquilo que me cerca, como um produto gerado de um conjunto de reações praticadas por cada um, a partir dos dados que o mundo oferece. Neste sentido, é preciso fazer uma escalada em direção ao cume da própria compreensão de si como uma tarefa libertadora destas determinações limitantes, que se revelam como grandes freios de nossa compreensão do mundo, grandes barreiras do encontro que todos nós temos com nossas próprias essências, com possibilidades de transcendência deste pacote de determinações mundanas que todos nós somos, em certa medida. Tornar-se um Deus me parece estar diretamente relacionado a isso, acessar este ponto focal essencial dentro de mim que seja capaz de desconstruir toda e qualquer limitação circunstancial que me tenha sido colocada como trava, seja pelo mundo, seja por uma percepção religiosa, ou política, seja pela própria estrutura mental da qual eu tenha me servido para existir.

Neste sentido, fazer de si um Deus envolve, sobretudo, abrir mão deste si. No entanto, é importante que se tenha em mente que apenas este "eu" limitado ao contorno mundano que recebi quando nasci é que precisa ser controlado e, quando necessário, sumariamente abandonado. Tornar-se um Deus não será uma tarefa de fazer-se infinitamente grande, ou infinitamente pequeno, mas sim entender que aquilo que se busca como obra final deve estar para além da grandeza, e que a infinitude nada mais é do que a própria ausência de grandeza. Nem grande, nem pequeno, cheio ou vazio, um Deus apenas é, somente assim ele pode o ser, exatamente porque se resume naquele que compreende este lugar estático, ausente, infinito, do cume paradoxal de sua própria compreensão. Sendo este, a única segurança na qual poderá verdadeiramente se apoiar enquanto plenitude. O contrário disso é simplesmente uma existência determinada, cujo foco é direcionado para a manutenção e permanência de uma forma em específico, determinada, limitada, tornada tempo, princípio e fim de mais uma forma dentre muitas possíveis.

Isso é uma das coisas que me traz à mente a tarefa do lluminato. No interior dos círculos iniciáticos da Specula, a figura do Iluminato representa um avanço na conquista desta autonomia mágica. É primordial que todo neófito entenda logo de início que o grupo e a sua manutenção são elementos fundamentais para a sobrevivência e a permanência do círculo Speculari. No entanto, o Iluminato será um dentre aqueles que entendeu que a grande tarefa só poderia ser cumprida sozinho. E isto pode ser considerado apenas por que o trabalho de aprimoramento de si mesmo vai depender, entre outras coisas, de seu foco principal no cuidado de si enquanto obra a ser desenvolvida. Todo Iluminato deve possuir, como característica principal, a criação e a sustentação de um ordálio, uma obra mágica, teste autoimposto, que não é algo outro, senão a projeção de sua própria essência no mundo. O clarão luminoso exercido por sua vontade que se impõe sobre o universo, marcando sua presença ao ponto de ser percebido mesmo pelas demais existências individuais que estão ao seu redor, que terminam por reconhecê-la como um trabalho de grandeza, de aprimoramento de si, concomitantemente, reconhecendo sua autoridade como Iluminato. Por isso, o treinamento de um Iluminato depende, sobretudo, da compreensão a ser desenvolvida sobre o treinamento, de que aquele que é treinado e seu treinador sejam, na verdade, a mesma pessoa.

Outrossim, o Iluminato também será capaz de reconhecer a presença de si mesmo nos outros membros do círculo, e tal reconhecimento é um avanço na dissolução de sua individualidade pungente, inicialmente prejudicial a essa tarefa nobre e mágica. Por isso, o ordálio de um Iluminato deve ser uma obra pública, cuja abrangência alcance, ao menos, o círculo iniciado. Seu trabalho é público, pois se trata de uma projeção ampla e determinante de sua própria vontade no mundo. O Iluminato não é outro senão aquele que realmente iniciou a tarefa de compreender que a evolução de sua obra mágica, ou ainda, que a projeção de sua verdadeira vontade no mundo, será manifesta por meio de sua obra, constituindo uma parte integrante do seu próprio ser, que agora se amplia, tornando-se outro, mas permanecendo o mesmo, ampliando os horizontes de sua própria manifestação no mundo. Cada indivíduo que tenha contato com sua obra, ainda que a compreenda de uma forma particular, doa algo de si para esta mesma obra maior, agora não mais um patrimônio exclusivo de apenas um indivíduo, mas de uma vontade que se projeta universalmente nas infinitas direções que o caos nos oferece, uma divindade.


Choyofaque!


MDC



Imagem da capa: "Death and Life" - Gustav Klimt

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