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Pânico satânico: o serial killer "bruxo" e a mídia



O caso envolvendo o spree killer de Brasília, Lázaro Barbosa, reacendeu a velha chama do pânico satânico brasileiro. Com pitadas de preconceito contra religiões de matriz africana e muito achismo envolvido, novamente o pavor descabido em relação ao "satanismo" cresce.


Veja que tudo fora do padrão a mídia sensacionalista coloca como "satanismo": bruxaria, paganismo, práticas de matriz africana, práticas ocultistas e qualquer coisa que foge à velha caixinha cristã. A mídia sequer se dá ao luxo de pesquisar mais a fundo para fazer as considerações devidas. Até aulas de Yoga viram "aulas de satanismo" para a mídia sensacionalista e o público cristão mediano, cuja maioria parece estar sempre ávida por espalhar informações contra aqueles que "não temem ao Senhor".


O Pânico Satânico não é novo. Ele é um movimento mundial e que cresce a cada dia. Ele cria "caçadores de satanistas", pessoas responsáveis por imputar crimes a alvos que têm uma espiritualidade fora do "padrão". Os crimes que mais gostam de colocar na conta do "satanismo" são: pedofilia, assassinato e estupro.


No que os caçadores de "satanistas" acreditam:


Eles acreditam que Satanás vive em aspectos culturais, como:


• Música do "mundo", geralmente rock

• Jogos de RPG

• Jogos de vídeo game

• Livros como "Harry Potter"

• Programas de televisão

• Filmes


O que eles afirmam:


• Quando você toca uma música ao contrário, pode ouvir mensagens satânicas, tais como as músicas da "Xuxa".

• Jogos de RPG do estilo deDungeons and Dragons podem levar à adoração do diabo

• Que o culto "satanista" é altamente organizado

• Que o "culto satanista" mata animais

• Que o "culto satanista" abusa de crianças

• Que o "culto satanista" força suas vítimas a assistir a matança de animais

• Que o "culto satanista" pratica necrofilia

• Que o "culto satanista" pratica a ingestão forçada de fluidos corporais,

• Que o "culto satanista" pratica canibalismo

• Que o "culto satanista" pratica orgias abusivas e forçadas

• Que o "culto satanista" sacrifica bebês

• Que os praticantes do "culto satanista" comem fetos e que esses fetos podem ser encontrados em Pepsi

• Que os praticantes do "culto satanista" profanam sepulturas cristãs

• Que os praticantes do "culto satanista" fazem sacrifício humano


O que ajudou a espalhar o pânico satânico


• A ascensão do cristianismo fundamentalista e sua entrada no mundo da política

• A ascensão do movimento anticulto, que tentou alertar as pessoas sobre o sequestro de cultos e a lavagem cerebral de crianças.

• A presença da Igreja de Satanás e a adoração a Satanás, o que tornou os rumores verossímeis - apesar do fato de a própria Igreja ser benigna.

• O aumento da consciência sobre o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (PTSD) e o conceito de memórias reprimidas.


Linha do tempo:


• O pânico satânico começou com as caças às bruxas históricas para provar que havia uma conspiração de longa data de adoração a Satanás que se estendeu por séculos. Alerta de spoiler: não havia.


• 1979. O desaparecimento de James Dallas Egbert III. Todos pensaram que Dungeons and Dragons era o problema, eles até fizeram um filme —Mazes and Monsters— sobre isso com Tom Hanks. O fato real era que James Dallas estava tendo problemas com sua sexualidade e tendo pensamentos suicidas. Ele se matou. Ou seja: o problema em si não era o RPG e sim a repressão à sexualidade.


• No final da década de 1980, o pânico satânico se espalhou dos Estados Unidos para o Canadá, Austrália, Reino Unido, Nova Zelândia, Holanda e Escandinávia.


• 1986, o autor Phil Philips e o pastor Gary Greenwald afirmaram que programas como He-Man e os Mestres do Universo, ThunderCats, E.T. e The Smurfs ensinavam bruxaria a crianças.


• Em 1987, a cobertura da mídia sobre o pânico satânico começou a ficar negativa e, no início dos anos 90, a paranóia em torno do pânico satânico começou a declinar e ser considerada ridícula.


• Em 1990, a banda de rock Judas Priest foi processada em US $ 6,2 milhões por pais que alegaram que seu filho havia tentado suicídio graças à música do Judas Priest. O juiz decidiu que não havia mensagens ocultas na música.


• 1992. Fran e Dan Keller foram condenados em 1992 por abusar sexualmente de uma menina de três anos em uma creche nos arredores de Austin, Texas. As acusações incluíam rituais supostamente satânicos, como sacrifício de bebês, amputação do braço de um gorila de zoológico, cerimônias secretas de cemitério e transporte de crianças para o México para serem atacadas por militares. Após um julgamento, cada um dos Kellers foi condenado a 48 anos de prisão. Os Kellers foram finalmente libertados em 2013, após vários apelos que puseram fim à luta de 25 anos dos Kellers para limpar seus nomes.


• Padres em uma paróquia católica no norte da Polônia receberam críticas depois que queimaram livros, incluindo da série "Harry Potter", e outros itens que seus proprietários disseram ter forças do mal. Isto ocorreu em pleno 2019.


Onde estão as provas?


  • Quando as pessoas pediram provas de assassinatos, os chamados especialistas em abuso de rituais satânicos vieram com desculpas bizarras, como em um caso em que “satanistas” foram acusados ​​de viajar em crematórios portáteis para se livrar dos corpos que sacrificavam.

  • A “prova” dos cultos satânicos normalmente assumia a forma de: fotos tiradas por pacientes de psicoterapia, capas de álbuns de heavy metal, folclore sobre adoradores do diabo e fotos de animais mutilados.

  • Quando você pergunta a prova para alguém: "prove o que você diz", você acaba se tornando um alvo: "oooo você está me pedindo a prova, então você deve ser um satanista ou um pedófilo".

  • Por causa do pânico, casos reais de abuso infantil foram obscurecidos e marginalizados.


O que está por trás deste pânico


O pânico satânico foi criado para desviar os casos de abuso envolvendo pastores e padres cristãos. Especialmente em rituais de:

  • Rituais históricos de exorcismo que não deram certo e que machucaram severamente pessoas com problemas mentais

  • Afogamento de crianças em rituais religiosos não satânicos

  • O extremo abuso sexual na Igreja Católica que começou a ser relatadono século 11, quando Peter Damian escreveu o tratado Liber Gomorrhianus contra tais abusos

  • Padres gays, regras secretas e o abuso de freiras: algumas das controvérsias do Vaticano

  • A pressão psicológica em relação aos jovens LGBTs dentro da Igreja


Sobre o serial killer de Brasília


  • Ao que tudo indica, ele é mais um pastor de cadeia e não um "bruxo" como dizem

  • Falam que a mãe dele é uma grande feiticeira, onde está a prova? Segundo o jornal Correio, a mãe e o padrasto dele trabalhavam na chácara de sogro do delegado-geral da PC-DF. Esta é a única informação que temos atualmente.

  • Tudo o que temos dele são supostas fotos de "feitiços mal feitos" e a palavra Satan na parede que poderia ser escrita por qualquer um. Estas fotos poderiam ser feitas por qualquer um.

  • Ao que tudo indica, ele sofreu um surto psicótico.

  • Estão usando satanismo novamente como desculpa porque nada consegue explicar 300 policiais à procura dele e ninguém conseguir encontrar este cara porque é ele é "mateiro".

  • Conclusão: não é a primeira vez que vejo a polícia colocando na conta da bruxaria o que não consegue resolver. Quando eu trabalhava na Penumbra, cheguei a fazer um artigo com dados da mídia sobre luciferianos que supostamente teriam matado crianças em rituais. Depois foi revelado que o cara não tinha nada a ver com isso, o delegado teria colocado isso pra mídia porque não conseguia resolver o caso.

  • Aliás, este jogo vai muuuito mais a fundo que vocês imaginam. Na gringa existem os "caçadores de satanistas", eles são especializados em imputar crimes a satanistas, bruxas ou ocultistas declarados. Mas graças aos deuses hoje temos outras ferramentas e há pessoas especializadas em expor esses caçadores. Muitos deles estão sendo, graças aos Deuses, presos e condenados. O pânico satânico continua vivo e quando vocês ficam compartilhando essas notícias sem saber, acabam sendo massa de manobra.


Pedophiles and Priests: Anatomy of a Contemporary Crisis



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