top of page

Resenha do Livro "Kalise"

Sempre considerei muito prazeroso pensar em questões relacionadas ao universo da magia, principalmente no que diz respeito à magia do caos. Tal sensação é algo que experimento agora, que considero um dia muito especial, pois tenho diante de mim uma obra singular, nunca antes produzida em terras brasileiras. Já faz algum tempo que aguardo ansiosamente pelo envio de meu exemplar do Kalise, comprado na campanha do clube do livro, cuja ansiedade pela leitura foi bastante aguçada pela live realizada entre as três autoras.

Gosto sempre de começar as minhas resenhas apontando impressões diretamente materiais em relação à obra que estou apresentando. Chama atenção imediatamente a qualidade do material e a envergadura do “ tijolo” que se encontra em minhas mãos. Nota-se também o estilo inconfundível dos desenhos produzidos por Wanju Duli. Quem já teve a oportunidade de ler alguns dos inúmeros trabalhos da autora poderá reconhecer o estilo de seus desenhos que transitam entre o irônico, o infantil, o sarcástico e, por que não, o perverso. Uma obra produzida por três grandes bruxas, pensadoras da magia, já é por si revolucionária ao enfrentar universo que ainda, infelizmente, é predominantemente masculino.

Ao iniciar a leitura me deparo com mais uma notícia feliz, ao observar que a introdução do livro é ainda mais abrilhantada pela presença de Melaine Noeros, cuja sutileza de estilo deveras aumenta a ansiedade pelo miolo da obra. A iniciativa de escrever um livro de magia do caos com seis braços femininos (algo que o desenho da capa me pareceu antecipar), também incrementa o brilhante trocadilho que a introdução de Melaine me embala a citar:

“Você pode beber do cálice, ou render-se a Kali. O que é inadmissível é ceder ao cale-se.”

Creio que as palavras supracitadas sejam suficientes para que eu não me torne repetitivo, trata-se de um livro revolucionário, escrito por mulheres revolucionárias. Nem preciso mencionar que a publicação de tal obra representa uma enorme inovação no cenário nacional da magia do caos. Dominado por pequenas fagulhas aqui ali, o cenário caoísta no Brasil ainda tem reservado muito espaço para ignorância e preconceito. Ainda desconhecida, esta jovem (a magia do caos), ainda não recebeu o que considero ser um tratamento satisfatório, quero dizer, ainda não havia recebido. A obra que tenho em mãos também é revolucionária por indicar nuances da magia do caos que não me parece haverem sido tratadas no Brasil se não nos esforços das obras já produzidas pelas autoras de Kalise.

Em uma recepção ainda tão curta quanto a que se opera na magia do caos, é notável que os conceitos, em sua aclimatação e transformação, demandam, muitas vezes, séculos de tratamento para se ajustarem ou mesmo se moldarem ao ambiente no qual são recebidos. E isso considerando que estamos no que podemos chamar de “transição de eras”, estamos assistindo aos primeiros golpes de vento que estão carregando consigo a possibilidade de criar uma nova era. Tal cenário, por vezes, bastante assustador para muitos, é também desafiador para outros tantos. Um período que clamam pelo novo, que busca uma fonte luminosa e aproxima mentes sedentas de uma nova quebra, uma nova torção, uma nova mudança que tenha força suficiente para ressignificar aquilo que está dado. O livro que tenho em mãos carrega consigo este espírito de novidade. Carrega o anseio de vozes historicamente silenciadas, milhares de forças que sempre se fizeram diretamente presentes no mundo, ainda que negligenciadas e brutalmente reprimidas.

A primeira parte do livro foi escrita por Wanju Duli, cujo estilo inconfundível está marcado em inúmeras obras, dentre as quais gostaria de destacar o “ Grimório da insolência”, cuja leitura me traz interessantes recordações sobre meus primeiros progressos mágicos individuais, bastante influenciados por essa leitura. Seu estilo autobiográfico, que dosa perfeitamente entre uma doçura que beira a inocência, e a melancolia que aplaca um semblante de profundas dores, algo que todos nós carregamos em um misto de doçura e amargor, uma grande metáfora/charada do ciclo de vida e morte ao qual estamos todos submetidos. Esta parte da obra é também uma grande invocação, a memória de que todas as emoções contidas em nós não são algo outro senão o mais puro fermento para a magia. Magia esta que é feita a partir dos múltiplos desdobramentos que as dimensões do si-mesmo impulsionam como inúmeras representações do caos. O diálogo com a própria imperfeição como reconhecimento da existência marcam a narrativa imponente que percorre esta primeira parte da obra, como um poderoso feitiço narrativo que exorta o leitor a continuar, experimentar mais um pequeno momento de delírio. Uma narrativa deliciosa, propositalmente contraditória, essencialmente discordiana, que revela algumas das mais fortes características contidas na magia do caos, que consistiria, fundamentalmente, em toda força para criar mundos.

A segunda parte do livro foi escrita por Lua Valentia. Escritora bastante conhecida do público interessado em magia do caos. O sistema Specular, criado por ela, tornou-se uma das principais egrégoras do mundo caoísta. Distribuído em seus inúmeros livros, há um amplo conjunto de possibilidades guardado no interior de sua obra.

Este segundo momento da obra é enfaticamente iniciado em grandes aspectos psicológicos relativos à construção emocional necessário para que as cargas energéticas sejam corretamente estimuladas e impulsionados no sentido de que a efetivação do ato mágico possa ocorrer. E em outros termos, o que estou dizendo aqui, a partir desta segunda parte, é esta também contribui diretamente para pensarmos como a nossa história individual representa o principal combustível de nossas práticas mágicas. Somos Deuses e vivemos o nosso próprio drama cósmico. Este universo pode ser chamado de nosso universo, na medida em que projetamos a nós mesmos em todas as coisas com as quais temos contato. Outrossim, podemos igualmente perguntar se não criamos todas as coisas como projeções do contato que temos conosco. O paradoxos à parte, é necessário que consideremos como parte integrante de nossos atos mágicos a iminência de nossa projeção psicológica, pois o que chamamos de história individual, que pode ser resumida no conjunto das narrativas que se construíram ao redor de cada um de nós, e que nos trouxeram até aqui no estado atual no qual nos encontramos. Importante destacar isso que denota, por exemplo, que trata-se muito mais de entender a forma como contamos a nossa própria história do que em transformar ela em algum outro. Ou ainda, é muito mais sobre significar fatos que podem ser mais ou menos fixos, do que tentar efetivamente modificá-los. A forma como observamos algo tem impacto direto naquilo que a coisa nos parece. Neste sentido, o relato de Lua Valentia constitui-se como um importante corolário para lições mágicas fundamentais, como a manutenção do diário, o bloqueio e o corte de energias intrusas, e a manutenção de um protocolo de proteção. A memória se revela como uma das características mais primordiais dos praticantes de quaisquer artes ocultas. É sempre evidenciado que o mago é também aquele que se lembra, o guardião das tradições, a torre de vigia que permanece de pé, rompendo a escuridão.

Qualquer ato mágico guarda seus riscos, e permanecer de pé é uma das partes mais significativas da grande obra. A reinvenção de si mesmo é a continuidade desta tarefa. Também por isso, a indicação de continuidade desta segunda parte da obra inicia por um processo de formação que capacita o iniciante a possibilidade de constituir para si um protocolo de ações que o permitirão escapar às armadilhas que a linha do tempo na qual está inserido guardam a ele. Sempre será possível dar um "pulinho" em outro universo. Neste caso, um novo esquema é apresentado ao leitor, que pode travar um conhecimento inicial com servidores da magia do caos e conhecer um pouco mais do sistema Specular.


A grande lição que a segunda parte do livro me deixou, para além de todo o conteúdo prático e, evidentemente, extremamente útil, foi a de que a experiência do mundo pode nos guiar a duas direções muito específicas. A primeira direção que a experiência do mundo fornece é a mais imediata, que toma a soma das experiências, sejam boas ou ruins, a partir de seus resultados, mas apenas na medida em que são prazerosos ou dolorosos. A conta resultante desta modalidade de contato com o mundo é o entorpecimento, por um lado, um deleite prazeroso daqueles que podem gozar os privilégios de uma vida pródiga e farta; por outro lado, este entorpecimento também se manifesta na agonia das dores experimentadas por aqueles que participam da agonia da pobreza, do desprezo, da invisibilidade, etc. Em ambos os casos, o que resta é um indivíduo passivo, fraquejante e cego para qualquer outra coisa senão a nuvem tempestuosa que foi erguida em sua fronte.

A segunda direção é exatamente o caminho que interessa aqui, pois está centrada na reação a essas forças entorpecedoras. Qualquer experiência do mundo pode ser modificada a nosso favor, desde que compreendamos seus mecanismos intrínsecos. Neste sentido, o conjunto de orientações que Lua Valentia fornece a seu leitor me parece algo extremamente relevante para todo aquele que pretende escapar à essa armadilha do cotidiano, de ser prisioneiro em uma realidade da qual não se poderia, a princípio, escapar.

Somado a primeira parte do livro, o leitor já possui em mãos um grande protocolo de orientação teórica e prática sobre como os mecanismos do mágico implicam diretamente em sua vida individual, mas também aponta para estratégias mágicas que permitem o ultrapassamento de tais limitações.

Se não fosse suficiente toda essa enormidade de protocolo para o deleite do leitor, gostaria de lembrá-los que ainda estamos nos encaminhando para a terceira parte do livro. Aqui temos contato com o trabalho de Diana D'lunne, que brinda o leitor com um sólido tratado sobre proteção individual, que considero a melhor forma de encerrar uma obra de tal magnitude. Creio que repeti isso algumas vezes, e nunca me cansarei de fazer isso, pois o essencial da magia começa a partir do protocolo de proteção, sem ele, todo magista é quase (ou mais) vulnerável que qualquer pessoa desconhecedora de práticas ocultistas. Esta parte da obra é marcada por uma detalhada explicação das múltiplas possibilidades que envolvem a construção e a condução de mecanismos e protocolos de defesa, considerando diversas variações que vão desde a magia mental, até o uso de ervas e talismãs. Trata-se de um elenco bastante completo de temas relativos à defesa individual que certamente são decisivos à saúde das práticas de qualquer magista.

Se você chegou até aqui, já estou terminando a resenha. Acredito muito em resenhas curtas, afinal, o que interessa de fato é que se leia a obra comentada. Também preciso dizer que se você ainda está aqui é porque o livro "Kalise" despertou em você o mesmo que provocou em mim, e que me motivou a escrever essa pequena resenha, uma minúscula contribuição frente a grandiosidade do que representa este lançamento. Muito me alegra poder estar perto de tal manifestação, que certamente representa um grande marco na magia do caos brasileira. Desejo meus sinceros parabéns a todas as autoras, cuja obra já pude conhecer em outras ocasiões, como o longo e brilhante trabalho de Wanju Duli; a grandiosa Specula da qual me orgulho de fazer parte, criada por Lua Valentia em tantos livros; e o oráculo Lua Negra Lenormand, desenvolvido por Diana D'Lunne, que tenho sempre à mão desde que chegou até mim. Espero que você possa encontrar no livro as soluções que busca, bem como possa acompanhar os relatos genuínos de mulheres que, ainda muito jovens, ousaram percorrer um caminho tão glorioso quanto tortuoso, que mistura o sucesso e ruína em proporções misteriosas, onde apenas as pessoas mais corajosas serão capazes de conceber. Choyofaque!


O Livro foi lançado pelo clude de autores e pode ser adquirido pelo link:





Vida longa a Specula!


Suiralucivalcodom






© Copyright
bottom of page