Como eram os Mistérios de Elêusis na Grécia Antiga?

07/09/2016

Localização e contexto histórico

 

“Feliz é o mortal que presenciou os Mistérios Eleusínios. Abençoados são seus olhos que os viram, pois após a morte a jornada da sua alma será diferente daqueles que não foram iniciados.”
Homero

 

A cerca de 30 km ao norte da cidade de Atenas, estava a pequena cidade de Elêusis, em grego Ἐλευσίς, uma região rica em campos de cevada e de trigo. Lá havia também o templo de Deméter, Δημήτηρ, a Deusa da agricultura. 

 

Em Elêusis eram realizados rituais de adoração a Deuses gregos. As principais Deusas cultuadas eram Deméter e e sua filha Perséfone (Deusa Invernal, Deusa da Primavera, Rainha do submundo). 

 

Os Mistérios, portanto, eram rituais centralizados na mitologia grega. A antiga religião grega era cívica, ou seja, não havia separação entre "a igreja e o estado". O natural e o divino eram indissociáveis. Portanto, os antigos gregos não precisavam provar a existência dos Deuses. Eles eram politeístas, acreditavam em vários deuses. Também entendiam que os heróis estavam entre mortais e deuses, (os chamados semideuses). 

 

De fato, os Mistérios eram de suma importância. Sófocles, dramaturgo grego, disse: "Apenas aqueles iniciados nos Mistérios eleusinos podem ter esperança no final de suas vidas e pela eternidade". O filósofo Aristóteles também citou a felicidade dos iniciados em não se preocuparem mais com o post-mortem.

 

Para os iniciais, todos eram aceitos: homens, mulheres, crianças, estrangeiros, pessoas escravizadas, o que aumentava muito a popularidade dos ritos. Para ser aceito, todas as pessoas tinham que saber grego de modo a entender o que se passava e nunca terem cometido assassinato.

 

 Após os rituais, os iniciados sentiam conforto e felicidade. Os iniciados chegavam ao êxtase, estágio mais alto de iniciação, conhecido como epopteia, em que tinham revelações divinas. 

 

O MITO CENTRAL DOS MISTÉRIOS

 

A origem dos Mistérios Eleusinos provém do mito de Deméter e Perséfone. 

Perséfone, a princípio também é conhecida como Coré. É uma menina encantadora de pés finos e olhos maravilhosos. À medida que cresce, sua beleza passa a ser reconhecida em todo Olimpo. Vários deuses querem desposá-la, mas sua mãe rejeita todos os cortejos. 

Hades, o Deus do Submundo, se apaixona pela primeira vez perdidamente. Pede autorização para desposar Perséfone, o que lhe é negado. Ele então rapta a bela moça enquanto ela colhia narcisos com suas irmãs. Quando Perséfone desaparece, Deméter se desespera à procura pela filha.


Irada, Deméter deixa o Olimpo e se disfarça de uma velha senhora cujo apelido é Doso. Ela então chega a Elêusis. Enquanto procura pela filha, a Deusa aceita um trabalho como ama num palácio. Oferecem-lhe vinho, mas Deméter pede uma mistura de farinha e água com poejo tenro (kukeôn).
 

Deméter cria o filho da soberana do palácio como um deus, pois queria torná-lo imortal. Dentre as práticas para imortalizá-lo, Deméter colocava a criança em meio a brasas. Certa noite, a mãe da criança viu seu filho arder e se desesperou. Deméter então não transforma o menino num Deus. 

 

Ela se cansa de seu disfarce, aparece em esplendor e ordena que construam um grande templo em Seu nome. Então ela ensina à humanidade os ritos dos Mistérios. Ela deixa o palácio e fica no Templo, desesperada pela ausência da filha. Seca a terra, seca as flores e assim nasce o inverno.

 

A humanidade se desespera e pede a Zeus uma solução. Zeus exige que Hades devolva Perséfone, mas Ela havia comido seis sementes de romã e deveria permanecer no submundo, tal como estabelecia a regra. Deméter então envia Hermes, o Deus da Comunicação, para resgatar Perséfone. 

Hades finalmente autoriza o resgate de Perséfone, desde que ela voltasse ao Submundo de tempos em tempos. Fica estabelecido então que Perséfone ficaria seis meses com sua Mãe (época da Primavera) e seis meses com Hades (época do Inverno). 

 

O objetivo dos rituais era morrer para renascer. Era preciso descer ao Submundo junto com Perséfone para enfim retornar à vida e florescer com a Primavera. 

 

COMO ERAM OS RITUAIS

 

O recrutamento para os Mistérios era aberto podendo até mesmo ser considerado proselitista. Diziam que os iniciados teriam privilégios após a morte, enquanto os não iniciados não saberiam se portar no Hades depois que morressem.  

 

Os Mistérios eram divididos em dois períodos. Os Mistérios menores eram celebrados no primeiro semestre, no mês de anthesterion (Ανθεστήριον), correspondente à março. Era quando os sacerdotes faziam liberações, sacrifícios e rituais de purificação.  

 

Já os Mistérios maiores ocorriam no segundo semestre, no mês de  boedromion (Βοηδρομιών), correspondente à Setembro. Os Mistérios Maiores começavam dia 15 de Setembro e duravam nove dias.

 

Dia 1 (15 de Setembro): Convocação e preparação dos iniciantes. Sacerdotes declamavam o "prorrhesis" que correspondia ao início dos ritos. 

 

Dia 2 (16 de Setembro): Elasis ou Helade Mistay: "Ao mar, ó iniciados". Acontecia um ritual de expulsão em que os iniciados se purificavam no mar. Os sacerdotes também sacrificavam um leitão à Deméter e diziam: "Helade Mistay", que significa: "ao mar, ó iniciados". 

 

Dia 3 (17 de Setembro): Hiereia Deuro - Dia de Sacrifício

Os iniciados faziam um sacrifício oficial em nome da cidade de Atenas. 

 

Dia 4 (18 de Setembro): Asclepia

Dia voltado para o Deus da cura. Dia de purificação. 

 

Dia 5 (19 de Setembro): Yacós ou Pampa - Dia de Procissão

Os iniciados faziam um itinerário sagrado, uma grande procissão que se iniciava em Ceramico (Cemitério de Atenas) até Elêusis, percorriam assim 32 km. Sacerdotisas levavam cestas, multidão gritava o nome de Yaco e dançava. Yaco é o nome de Dioniso (filho de Perséfone e Zeus), Deus do vinho. Pessoas mascaradas encenavam o mito. Era um dia também de baile, canto. Os templos de Poseidon e Ártemis se abriam para todos.

 

Dia 6 (20 de Setembro) (mysteriodites Nychtes):

Dia de descanso, jejum, purificação. Bebiam uma bebida de cevada, mel e pólen (Kykeon). Iniciados podiam entrar no templo sagrado). Exibiam objetos sagrados à Deméter.

 

Dia 7 (21 de Setembro) - Início dos Ritos Secretos

Dia de lamentos, saiam em busca de Perséfone na escuridão com olhos vendados e guiados por um mystagogo. 

 

Dia 8 (22 de Setembro) - Plemochoai

Dia de sacrifícios e festas envolvendo a plantação. o contato da chuva com a terra e assim o milagre da vida.

 

Dia 9 (23 de Setembro) - Epistrofe 

Iniciados voltam à Atenas renascidos.

 

Tais rituais eram tão secretos que a eles deram o nome de Mistérios. Estão entre os mais importantes do mundo antigo. Os rituais duraram cerca de mil anos! Remontam ao século VI a.C até a destruição do templo pelo imperador romano Teodósio (400 d.C). O cristianismo tentou matar os Mistérios de Elêusis na Grécia Antiga, mas eles continuam presentes até o dia atual, tanto que nós os adaptamos à nossa Era. 

 

Fontes: 

[1] RITUAL DOS MISTÉRIOS ELEUSINOS - MITOLOGIA GREGA - Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara

[2] AS INFLUÊNCIAS DA RELIGIÃO ANTIGA GREGA (MISTÉRIOS DE ELÊUSIS, DIONISISMO E ORFISMO) E DE ALGUNS ELEMENTOS ESSENCIAIS DO PITAGORISMO E DE PLATÃO NA CONSTRUÇÃO DA DOUTRINA ESCATOLÓGICA TRADICIONAL CATÓLICA, Leandro Nazareth Souto e Renée Silveira Ferreira

[3] A IDEIA DE SALVAÇÃO POST-MORTEM NO RITUALDOS MISTÉRIOS DE ELÊUSIS NA GRÉCIA ANTIGAAluna: Gabriella Alves dos Santos e Santos

 

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