O Castelo Vermelho

20/09/2016

 

Aqueles olhos de vidro me encaram, saltando dos tijolos avermelhados do primeiro andar.  Eu morava no segundo andar – quarto do canto, até que compraram a casa e fui expulsa, sem direito a negociar um novo  contrato de aluguel.

Toda tarde, após o trabalho, posso refrescar minha memória naqueles três andares de profunda nostalgia. Com os meses, fui notando os pequenos sinais de maltrato. O jardim da frente passava semanas sem uma gota d'água - pobres orquídeas. Trincaram duas vidraças do segundo andar - e assim elas permaneceram. Os novos donos - uma família, marido esposa e três filhos - não cuidavam como deveriam do pequeno Castelo da Rua Treze de Maio.

Se ao menos admitissem dividir a casa com outros moradores, - a casa tem dez quartos! - eu tiraria do telhado as folhas de outono e concertaria, do banheiro térreo, a infiltração no teto - sinto o fedor do outro lado da rua.

O Castelo vivia rodeado de gatos. Eu costumava deixar uma vasilha com leite no beiral da porta de entrada e na sacada de minha janela. Semanas atrás, quando eu passava em frente ao portão, os gatos me seguiam com o olhar e me cumprimentavam com o rabo. Alguns até me seguiam na rua. Creio que rodeiam a casa por hábito, pois os novos proprietários nada fazem pelas visitas de quatro patas.

Nos últimos tempos, folhas formaram um tapete amarronzado no jardim frontal. Rachaduras adornam as paredes do terceiro andar. A poeira e a água da chuva pintaram veias negras no reboco. Pouco a pouco, os gatos sumiram de seu resort felino.

Essa terça, havia uma senhora escorada na pilastra do hall de entrada. Cabelos brancos, olhar severo.  Fumava com a mão direta, mantinha a esquerda no bolso. Logo que me avistou veio ao meu encontro na grade.

_Ei, moça. Faz o favor.

_Oi. Boa tarde. - fiquei meio sem jeito.

_Você morava aqui antes, não é mesmo? 

_Sim, morava no segundo andar, quarto da parede Oeste, de frente para o...

_Por que não entra um pouco? – Ela abre o portão, sem tranca. – Você deve sentir falta dessa casa, não é mesmo?

_Olhe, eu só estava de passagem.

_Você passa aqui em frente todos os dias, eu posso te ver da janela do meu quarto. Todo dia, cinco e quinze da tarde em ponto, feito um reloginho.

_Eu sei, mas é o caminho que faço do trabalho para casa.

Detestava a sensação de estar me desculpando, quanto simplesmente dizia a verdade. A realidade é que eu não queria nem imaginar como aquela casa estaria por dentro, a julgar pelo aspecto que tinha do lado de fora.

_Mas essa noite eu preparei uma janta apenas para recebê-la. Eu pensei que você tivesse curiosidade de saber como a casa está depois de tanto tempo longe dela. Quero dizer, nem tão longe assim, não é?

Seu cabelo desalinhado só acentuava o meu incômodo. A borda de sua camisola estava meio amarelada e, a julgar pelas olheiras, ela não dormia há dias. O brilho de sua pele denunciava a oleosidade e a provável falta de banho. O que poderia, alguém que parece cuidar tão mal de si, ter preparado para janta?

Eu só queria me desculpar de qualquer jeito e ir para casa, mas nunca soube mentir. Não tinha motivos para não entrar, talvez eu preferisse atender à minha curiosidade e, sim, eu ainda queria ver o pequeno castelo de perto, mesmo que uma última vez.

_Está bem. Mas eu não posso passar muito das seis, pois tenho uns relatórios para passar a limpo até o fim do dia. – E era verdade!

A porta de entrada estava meio emperrada. Ela precisou forçar sua entrada com o ombro. Meu peito doeu quando notei que o umbral da porta estava entregue aos cupins. Do lado de dentro, a casa mantinha sua atmosfera úmida e fria. Entregue à penumbra, o hall de entrada até que gozava de bons tratos. O verniz do corrimão da escada parecia polido recentemente. O corredor que liga à cozinha ostentava um tapete rendado vermelho, enquanto quadros de gatos com moldura de porcelana preenchiam as paredes da escada.

Estávamos à luz de velas. Não sei se a intenção dela era ser romântica, mas com certeza me ajudou a tropeçar umas duas vezes no meio do caminho. Também me dificultou perceber o que estava disposto à mesa quando chegamos numa copa do terceiro andar.

Carne. Todos os pratos possíveis com muita carne bovina – a julgar pelo aspecto. Alguns pratos pareciam ser de carne de porco – não sei bem discernir um de outro. Bondosa, a senhora me ofereceu um lugar na cabeceira e foi sentar à outra ponta de uma mesa de quatro metros de comprimento.

Ela começou a se servir de tudo que lhe alcançava às mãos, vorazmente. Um pernil ali, um toucinho lá – ou algo parecido com toucinho –, uma alcatra do outro lado e mais carne não identificada. Mal parecia mastigar, levando mão após mão para os dentes. Eu fiquei apavorada, para dizer o mínimo. Subitamente ela parou – os lábios avermelhados de sangue – e me perguntou.

_Não vai experimentar o delicioso banquete que lhe preparei, querida?

_Oh, desculpe. Eu não esperava que o jantar fosse só, carne. Acontece que eu sou vegetariana.

_Ah, é mesmo? Não come carne? Mas não vai experimentar nem um bocadinho? Eu mesma preparei tudo o que vê. Eu mesma abati a carne, desmembrei e cortei cada pedacinho que vê diante de si.

Só então me dei conta de estar sozinha naquela casa enorme, com aquela senhora esquisitona. Onde está seu marido e as crianças? Eu pensei que estivessem trabalhando ou na escola, mas a julgar pelo olhar e, oh não, a carne na mesa!

_Eu terei de comer tudo sozinha, é isso que está dizendo? – ela se contorcia e fazia as carrancas mais estranhas, expondo os dentes e arregalando os olhos.

_Eu acho que eu não posso mais ficar, sinto muito. – Me levantei e me apressei para as escadas.

_ONDE pensa que VAI, mocinha?!

Ela correu para bloquear meu caminho de garfo e peixeira na mão. Corri e escorreguei por baixo da mesa. Quando cheguei do outro lado, ela estava engatinhando por cima da mesa, manchando a camisola de óleo e sangue.

Decidi enfrenta- la. Antes que pudesse descer, peguei-a pelo ombro e a arremessei no chão. Ela graniu feito um gato irritado. Oh, o que será que ela fez aos gatos? Dei-lhe um chute no estômago.  Ela cuspiu um pedaço de carne. Outro chute no peito e ela ficou sem ar.

Continuei a sessão de pontapés. Por cada membro da família disposto à mesa, por cada gato desaparecido. Continuei chutando até perceber que a velha não se movia mais. Teria a matado? A possibilidade me fez sair correndo da casa, na esperança de nenhum vizinho ter escutado a confusão.

Até hoje, o terreno está abandonado. Ninguém se empolga a comprar a casa onde ocorreu uma série de crimes tão hediondos. Chamaram-a de amaldiçoada - injustiça! Se eu pudesse, eu mesmo comprava o Castelo Vermelho. Compraria tapeçarias das mais finas e daria verdadeiros motivos para os rumores sobre a casa. Enquanto não o faço, namoro de longe meu castelinho de três andares.

 

 

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