La Strega Mamma Befana, a boa bruxinha das crianças

Todo fim de ano vivemos um clima natalino, e todas as crianças ficam na expectativa dos presentes. A expectativa é tão grande que muitos se sensibilizam, e adentram e promovem campanhas para a doação de brinquedos para crianças necessitadas. Também não é necessário falar do icônico Papai Noel, com seu saco de presentes, e sua contraparte (e ajudante de certa forma) pouco conhecida no ocidente, o assustador Krampus, com seu saco de levar crianças malvadas. 
Na Itália, porém, a estrela do dia dos presentes é outra pessoa, e noutra data, tido por muitas como uma bruxa velhinha, a Strega Befana, (também conhecida como Strega Mamma Befana) personagem importante do folclore italiano. 
Equivalente a Papai Noel e Nicolau de Mira (ou Bari) é oriunda de Roma, tendo se estendido por toda a Itália peninsular e em Ticino, que seria a parte italiana da Suíça.
Devido a algumas versões provavelmente sincretizadas, cria-se que seu nome teria provido da celebração da Epifania, embora haja mais evidencias que ela seja uma versão da deusa sabina/romana conhecida como Strina, (que pode ter sido sincretizado pelos católicos aversos a qualquer divindade senão a própria, como “strega”, bruxa em italiano).
O reverendo John J. Rom (ou Jhon Murray, 1983) relata em seu livro “Vestiges of Ancient Manners and Custons, Discoverable in MOder Italy and Sicily”, que a “Befana”poderia ser herdeira das características da deusa pagã Strenia, que por acaso patrocinava presentes da passagem de ano – “Strenae”, para ser mais exato quanto a origem do nome, cujos presentes eram inicialmente os mesmo de Befana (fonte D. Augustin.; de Civit. Dei, liv.iv.c 16), que eram figos, tâmaras e mel. (Ov.Fast.i.185)
As celebrações recebiam forte oposição dos primeiros cristãos, devido as características da festa, tido como barulhenta, muito agitada e licenciosa (fonte: Rosini, ed. Dempster. Lib. i. c. 13 De Dea Strenia, pagina 120).

O folclore

De acordo com o folclore popular, Strega Befana, visita todas as crianças da Itália na noite de 5 para 6 de janeiro, para encher as meias das crianças que haviam se comportado bem com caramelos, e com um pedaço de carvão, as meias das mal comportadas. Existe inclusive um doce chamado “Carbone di Befana”, o carvão da Befana em português, que faz total alusão ao carvão folclórico em si. Ela ainda sendo boa dona de casa, diz-se que varre o piso antes de sair. A tradição recomenda que se deixe uma garrafinha de vinho e uma porção do prato típico ou local para a boa Mamma.


De onde se tirou que ela é bruxa?

La Befana é em geral representada como uma velhinha de xale negro, coberta de fuligem das chaminés que adentra para visitar as casas. Voa montada numa vassoura, sempre sorrindo, carregando um cesto cheio de doces, presentes e carvão. Por isso só já poderíamos deduzir algum estereótipo de bruxa, mas temos que adicionar o desprezo cristão por costumes pagãos, onde se demonizava qualquer cultura pagã. Sua ligação com “Strenia”, foneticamente lembra muito “strega” bruxa em italiano e latim, (curiosamente  strix, é um certo tipo de coruja). A adição do “Strega” ressalta como a Befana era vista pelos primeiros cristãos. 

Porque ela dá presentes às crianças?


Como dito antes, Strenia patrocinava uma festividade de passagem de ano, mais precisamente os presentes da festividade. Não conseguindo suplantar ou destruir a comemoração, optaram pelo que fizeram com “Solis Invictum”grego e o Yule, onde o nascimento de Cristo foi transportado para a data. Acabaram por criar uma versão católica para a lenda e uma suposta origem bíblica para a Befana, que existem duas versões, uma delas bem triste:

Deturpação cristã e sincretismo

Segundo essa versão cristianizada da Befana, conta-se que os Três Reis Magos iam a Belém levar presentes à criança Jesus (Ieshua) que havia nascido, e pararam para pedir informações a velhinha, que na verdade não sabia o caminho, mas convidou-os a pernoitar em sua casa. Como agradecimento pala estada, convidaram-na para segui-los e ver a criança, mês ela lhes disse que estava muito atarefada. Tendo se arrependido mais tarde, seguiu o caminho tomado pelos rei magos, mas nunca conseguiu encontrá-los. Diz-se então que desde aquela data ela passa por todas as casas dando doces as crianças na esperança que algum deles seja a criança Jesus.
Noutra versão, mais triste, ela própria teria um filho, que fora levado por ordem de Herodes, e teria partido no intento de recuperá-lo, procurando por toda parte entre as crianças que via, a sua. Ao visitar cada criança, ela deixaria um presente. 
Chamo a atenção para o fato de numa só história encontrarmos “reis magos” e uma bruxa. Existem inúmeros poemas sobre La Befana na Itália, e termino o texto com a tradução de dois deles:


La Befana vien di notte
Com l escarpe tutte rotte
Col vestito alla romana
Viva, Viva La Befana!

 

Tradução:


A Befana vem de noite
Com os sapatos quebrados
Vestida a moda romana
Viva, viva a Befana!


No lago de Gardas Setentrional, os moradores da província de Trento cantam:

 

Viene, viene la Befana
Vien dai monti a notte fonda
Neve e gelo la circondam...
Nege e gelo a tramontana!
Viene, viene la Befana!


Tradução:

 

Vem, vem, a Befana
Vem dos montes a noite profunda
Neve e gelo a circunda
Neve e gelo e tramontana*!
Vem, vem, a Befana

(“tramontana”, vento do norte. A bruxinha é valente!)
Namárië !

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