Entrevistamos Vinicius Ferreira, fundador da Penumbra Livros!

24/10/2017

 

 

A pergunta que eu mais ouço é: onde encontro livros em português sobre ocultismo? Já tenho até um bloco de notas aberto para passar meus links favoritos. A editora Penumbra Livros lança clássicos obscuros e participa de eventos literários sobre o assunto. Confesso que fiquei muito curiosa para entender mais sobre este mercado em franca expansão aqui no Brasil. Então entrevistei Vinicius Ferreira, fundador da editora, para saber mais. Confira!

 

 

Lua Valentia: Como surgiu a ideia de criar a Penumbra? 

 

Vinicius Ferreira: Antes da Penumbra existir, eu já consumia muito desse tipo de conteúdo que hoje nós produzimos. E eu enxergava um buraco enorme no mercado editorial brasileiro. Se eu quisesse ler qualquer coisa que fugisse do feijão com arroz, tinha que trazer de fora. Isso para mim era só um inconveniente e um gasto a mais, mas eu sempre ficava pensando: e quem não consegue ler em inglês, ou francês, ou alguma outra língua que tenha produção literária relevante nesse campo de ocultismo e magia? E a resposta é muito clara: essa pessoa ou vai ficar sem ler, ou vai ter que recorrer aos PDFs que circulam por aí, normalmente com traduções muito ruins. Alguém precisava fazer alguma coisa. Então nós decidimos ir lá e fazer.

 

Lua: Temos a velha afirmativa de que brasileiro não lê. O mercado editorial ocultista no Brasil é rentável?

 

Vinicius: Vou responder sua pergunta em duas etapas: primeiro com fatos, depois com opinião. Vamos aos fatos: o gênero "religião" no Brasil só não vende mais do que livros didáticos, com cerca de 20% do mercado, segundo pesquisa CBL/FIPE para 2015/2016. O problema é que boa parte desse volume de "religião" é ocupado por padres, pastores e espíritos desencarnados. Portanto, há uma grande demanda por títulos relacionados à espiritualidade, mas o brasileiro ainda dá muita bola para cristianismo e espiritismo, e pouca importância para ocultismo. Agora, minha opinião: vá a uma livraria qualquer e passe um tempo olhando para as pessoas que vão na prateleira de ocultismo. Em comparação ao resto da livraria, tem muito mais gente comprando dessas prateleiras do que das outras (ficção, didáticos, etc.). Então, eu acho que o público ocultista no Brasil é pequeno, mas adora ler e está sempre consumindo.

 

Lua: Vocês têm parcerias com grandes livrarias como a Cultura, certo? Como se deu a expansão deste mercado? 

 

Vinicius: Nós começamos vendendo nossos livros exclusivamente em nosso e-commerce, e continuamos assim até termos construído um catálogo minimamente interessante para as livrarias. Poderia até ser fácil colocar dois ou três títulos em uma livraria de bairro, mas as grandes, as redes, que atendem boa parte do Brasil, dificilmente se interessariam por uma editora tão pequena. Então, assim que nosso catálogo ganhou massa crítica, corremos atrás de colocar nossos livros na maior quantidade possível de prateleiras pelo Brasil. Isso facilita, por exemplo, a vida das pessoas que moram no Nordeste, que se fossem comprar pelo nosso e-commerce (enviamos de São Paulo) precisariam pagar mais caro no frete do que nos livros. Hoje nossos livros são bem fáceis de se encontrar por aí - tanto nas livrarias grandes (Cultura, Saraiva, Amazon, etc.) quanto nas pequenas.

 

 Liber Null e Psiconauta: livro clássico da literatura da Magia do Caos

 

Lua: Como foi o contato com os autores para a publicação de livros clássicos? Estou especialmente interessada no contato com Peter Carroll...

 

Vinicius: Nosso primeiro contato foi com a Starfire Publishing, na Inglaterra, que nos ajudou a intermediar o contrato com a viúva de Kenneth Grant, a Steffi Grant. Ainda não tínhamos nada de concreto para apresentar, mas tínhamos um plano, e nenhum livro do Kenneth Grant estava sendo publicado no Brasil. Então acho que a Steffi não tinha nada a perder, só a ganhar. O processo todo foi extremamente burocrático, com milhões de e-mails para um lado e para o outro, mas no fim das contas deu tudo certo. Com os demais autores e editoras, a qualidade dos livros que já havíamos lançado foi a chave que abriu várias portas. No caso do Peter Carroll, a negociação foi bem impessoal, tratamos com uma agência que representa a editora americana que publica os livros dele, e não diretamente com o autor. Mas cada caso é um caso.

 

Lua: Imagino que seja bem difícil competir com a cultura do PDF que se instaurou aqui. Eu sempre tento passar o link para os livros físicos, diretamente da editora. Mas muitos preferem a facilidade do PDF. Como vocês fazem para tornar o livro físico mais atraente?

 

Vinicius: Primeiramente eu quero agradecer você por sua postura de recomendar links para os livros físicos, porque é esse tipo de indicação que movimenta o mercado. Mas eu francamente não acho que os PDFs sejam realmente concorrência para nós. O leitor que se acostumou a ler PDFs normalmente já deixou o filtro de qualidade para trás há tempos. E o fato de ser grátis é muito atraente. É claro que tem que leia o PDF por falta de opção - e esse vai querer passar para o livro impresso assim que tiver a oportunidade. Mas eu não acho que uma pessoa que acredita que está se dando bem lendo uma tradução horrível em PDF, porque é de graça, vai comprar um livro físico, mesmo que custe cinco reais. O nosso objetivo, então, é fazer com que nossos livros sejam objetos de desejo para o leitor, uma coisa que fique bonita na estante, que dê gosto de mostrar para os amigos. Porque se nossos livros fossem "genéricos", digamos assim, não ia adiantar nada, eles seriam só peso morto nas livrarias por aí, ninguém ia querer comprar.

 

Cthulhu na Mystic Fair de 2016

 

Lua: Vocês têm uma sede em algum lugar fixo no Brasil? Ocultistas interessados e profissionais da área podem enviar currículos para trabalhar para vocês?

 

Vinicius: Não temos uma sede física, todos os colaboradores e freelancers trabalham em home office. Apesar do nosso produto ser low-tech, temos que pensar e agir como uma start-up de tecnologia para ter alguma chance de sucesso nesse ambiente tão complicado para empreender que é o Brasil. E sim, estamos sempre interessados em currículos - tradutores, revisores, ilustradores, etc. No momento, estamos correndo atrás de uma pessoa nova para tocar nosso site e nossas mídias sociais. Os interessados podem mandar o currículo (e porfólio, e qualificações, e a história da vida, se quiserem) por e-mail para contato@penumbralivros.com.br.

 

Lua: Vocês aceitam novos autores? Como funciona a escolha para novos autores interessados em publicar com vocês?  É preciso pagar algo? 

 

Vinicius: Estamos, sim de olho em novos autores. O processo de seleção de originais é constante e inacabável, e existe uma fila (então pode ser que demoremos um pouco para responder). Nesse momento estamos analisando tudo que recebemos de não-ficção, e estamos esperando alguma coisa realmente bombástica aparecer para nós. Não vamos cobrar nada de quem quiser publicar conosco, mas também não vamos aceitar qualquer coisa. Aliás, fica a dica: se você é autor ou autora, e alguma editora quiser cobrar para publicar seu livro, saiba que você está sendo vítima de um golpe. Se quiser mandar seu original para nossa avaliação, o e-mail também é contato@penumbralivros.com.br.

 

Lua: Quanto à divulgação, em que áreas vocês mais investem? 

 

Vinicius: Hoje usamos basicamente três canais de divulgação: mídias sociais, nosso blog, e podcasts - principalmente o Mundo Freak e o Magic(k)ando.

 

 Outro clássico da Magia do Caos: Principa Discordia 

 

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