A Magia Memética e O Culto de Kek

30/11/2017

“O Nilo ficará infestado de rãs. Elas subirão e entrarão em seu palácio, em seu quarto, e até em sua cama; estarão também nas casas dos seus conselheiros e do seu povo, dentro dos seus fornos e nas suas amassadeiras. As rãs subirão em você, em seus conselheiros e em seu povo".
Êxodo 8:2-6

 

 Frenéticas orgias sob a tênue luz da Lua, ocultas pelas densas sombras de florestas européias enquanto o uivo de lobos e o coaxar de sapos ecoam pela noite são uma das primeiras imagens evocadas quando pensamos nos arcaicos sabás de magia negra. Três sapos, simbolizando espíritos impuros, são ostentados na brasão de Satanás representado no Apocalipse de Douce, um dos mais notórios manuscritos apocalípticos da idade-média, já na alquimia, esses anfíbios crepusculares simbolizam a dissolução. Sempre se esgueirando em lugares úmidos e umbríferos, sapos e rãs passam por metamorfoses em sua vida anfíbia, e simbolizam por tanto a matéria informe, diluída e em necessidade de refinamento. A raiz etimológica da palavra “alquimia” se encontra no termo árabe “al-khem”, terra negra, usada para descrever as escuras terras que permeiam o Nilo.

 

 Não é então de surpreender que o simbolismo oculto de rãs e sapos possa ser traçado até essa estranha terra de monumentos colossais e criptas adornadas em ouro, onde o conceito de escuridão e de caos era deificado como Kuk, um deus primordial e andrógino. Na forma masculina era retratado, obviamente, como um sapo, e na feminina como uma serpente. Era símbolo das trevas e do desconhecido, portanto, do caos incriado e desgovernado. E aqueles que acreditam que tal divindade ancestral seria esquecida no advento da era digital estão equivocados, perigosamente equivocados.
 2016 foi um ano incomum, a Coréia do Norte disse ter testado uma bomba de hidrogênio, o Relógio do Juízo final avançou, David Bowie retornou ao seu planeta natal e nunca antes as eleições presidenciais dividiram com tamanha violência o povo estadunidense. Os contrastes entre esquerda e direita se tornaram mais latentes, dando vazão ao nascimento de grupos extremistas de ambos os lados, o caos começa a imperar.
 Ocultistas apoiadores do candidato Donald Trump então se reuníram para a criação de uma egrégora. No ocultismo, uma egrégora é uma entidade psíquica autônoma com o poder de influenciar eventos ou os pensamentos de um grupo de pessoas, geralmente criada por uma congregação de magos ou feiticeiros para materializar algum objetivo específico. Já perambulava pela internet desde 2005, um meme conhecido com o Pepe The Frog (Sapo Pepe), originalmente personagem da série de histórias em quadrinhos Clube do Menino, criado pelo artista Matt Furie, tornou-se viral ao longo de 2008. Associado a onomatopéia “kek”, uma espécie de risada virtual que havia surgido já a muito tempo em MMORPGs para contrapor a “LoL”, acrónimo para laugh out loud, que em português significa  "muitas risadas". Não tardou para que esse mascote tão comumente utilizado na internet por grupos de ultra-direita da internet fosse convertido na egrégora em questão.
 A egrégora foi então alimentada através da divulgação de mais e mais memes, todos com o intenção de alavancar a campanha de Donald Trump. É possível buscar explicações nas ciências políticas e econômicas que justifiquem a vitória política do milionário nova-iorquino sob  Hilary Clinton, mas certamente essas serão ignoradas pelos ocultistas que acreditam piamente na participação da tecnomagia memética para empoderar o candidato. Não tardou para que a bizarra semelhança entre o mascote e o primordial deus egípcio fossem notadas, levando muitos desses místicos a até acreditarem que Pepe é, na realidade, um avatar da antiga e terrível deidade.
 Talvez essa estranha história não seja mais do que uma piada da internet, ou talvez tenhamos presenciado, da forma mais estranha possível, a ressurgência de um arquétipo atávico de nosso inconsciente coletivo em plena era digital, um arquétipo associado ao absoluto caos e todo o seu ilimitado potencial criativo, para o bem ou para o mal. Caso a segunda hipótese seja a verdadeira, continuaremos a presenciar o retorno de tais forças primordiais através de roupagens contemporâneas? Antigos símbolos assumirão novas máscaras no universo digital de pura e incalculável informação? Ou seria o destino de nossa espécie sutilmente controlado por forças além de nosso pífio entendimento?  

 

Por: Caio Domingues

 

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