O paradigma da incompreensão: porque magia não são peças de lego.

01/12/2017

 

 

 

Esse texto não é um desabafo. Esse texto é uma reflexão.

Eu me formei em filosofia pela Universidade Federal do Ceará e nos últimos semestres, depois de ter sido durante 4 anos bombardeado com uma série de rigorosos preceitos de uma educação formal na tradição, foi-me apresentado por uma excelente especialista no tema, um tipo de filosofia extremamente contemporânea chamada Filosofia da Diferença.

O que isso no final das contas tem a ver com magia do caos? Em resumo, e um resumo extremamente grosseiro; o principio da construção filosófica em filosofia da diferença é mergulhar no caos (assim como o fazem a ciência e a arte) e produzir conceito. Claro, os conceitos são surgem do nada, apesar de serem feitos dessa matéria prima chamada caos, ele surge de uma necessidade e por avizinhamento.

Um conceito, novamente é uma simplificação, gera um território e é mister na filosofia o eterno polimento daquele conceito que está morto, ele não gera mais nada. O filosofo da diferença cria então algo chamado linha de fuga, criando o novo, um novo conceito, que em algum momento deve ser apropriado num novo território, que vai gerar uma nova linha de fuga e assim sucessivamente.

Isso, meus caros, é a meu ver a magia do caos. É mergulhar no que pode ser potencializado em antigos sistemas, enraba-lo (usando uma linguagem deleuziana) e literalmente, criar um filho por trás, isso é criar o novo. Não simplesmente reciclar o velho, não o colocar novas roupas, não; é utilizar-se da potencia criadora e criar um paradigma, da mesma forma que a filosofia cria conceitos.

O mago do caos, assim como o filosofo da diferença, é um experimentador; ele mergulha nas diversas formas de saberes, ele embaralha as cartas da mesa do destino e cria portas onde havia paredes.

E o grande problema que nós estamos enfrentando é que, por algum motivo, estamos criando portas em buracos vazios. O que isso quer dizer? É simples. O jeito brasileiro de fazer magia do caos é, na verdade, usar magia do caos. É montar sistemas fechados, onde antes havia linhas de fuga, é territorializar o conceito e se recusar a sair dele.

E esse não é o único problema, claro, a criação de sistemas dentro da magia do caos é esperado, apesar da falta de experimentação ser uma perda. Mas o principal é que as pessoas creditam à magia do caos aquilo que ela não é: bagunça, uma desculpa para usar praticidade e preguiça, ao invés de estudo real. A magia do caos brasileira se tornou fast food de magia, a preços baratos.

Para se quebrar um sistema, para se elevar acima do sistema, para criar uma linha de fuga efetiva, um conceito realmente importante, deve-se conhecer o sistema. Mais que um tradicionalista, um mago do caos, assim como um filosofo da diferença, deve conhecer extremamente bem os dogmas os quais pretende quebras, o território onde ele pretende construir sua cabana. O mago do caos deve conhecer o seu ponto de partida, porque aquele que não sabe seu ponto de partida, quando sai sem destino, termina geralmente em lugar nenhum.

A postura de um feiticeiro é a postura de alguém que está sempre em contato com o conhecimento, que está sempre buscando entender o que há por detrás das cordas do espetáculo. Mais importante que conhecer o que são os quarenta servidores, como eles funcionam e onde eu devo usa-los (e isso é importante), é entender a dinâmica por trás da criação, o arquétipo por detrás da modernização, é entender o processo e como ele reage a você.

 Uma vez que você entende como a energia do The Lovers se afiniza com a sua, e para isso você precisa conhecer a si mesmo e conhecer o The Lovers, você entende não só como usa-lo de maneira a maximizar seus resultados, mas aprende como construir algo que seja ainda mais adequado a você. Você entende o conceito, o enraba, e cria um novo.

aprendamos que magia não é um conjunto de legos em que pegamos as partes e as cores que se encaixam no que queremos — e no que acreditamos — e montamos algo perfeitamente funcional em linhas pré-estabelecidas. Que entendamos que magia é uma massa de modelar que vai para todos os lados e que você não precisa continuar construindo casinhas e bonecos de palito.

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