Medeia: faces de uma heroína na Grécia Antiga

“A AMA:

A Cólquida está longe: teu marido te traiu;

 nada te fica de tantas riquezas.

MEDÉIA:

Resta-me Medéia: e nela tu vês o mar e a terra,

 o ferro e o fogo, os deuses e os raios”

(Sêneca)

 

 

 

 

A figura feminina na antiga Grécia era símbolo de fraqueza. Num geral, passava despercebida, restrita quase sempre ao ambiente doméstico, onde tinha como principais atribuições a coleta de água e frutas, o cuidado com os filhos, a confecção de roupas, etc. A mulher figura, na maioria das vezes como o “outro”, criada como forma de punição, sendo considerada um mal, comparada a animais como a porca, a raposa e a macaca. O único tipo considerado benéfico seria a mulher-abelha, que desempenha as tarefas da casa com maestria e não se ocupa de coisas consideradas temíveis.

Num ambiente pouco receptivo à mulher, como imaginar um cenário onde a mesma possa representar um papel central? Como a mesma pode figurar como heroína?

 

Nesse contexto, Medeia surge como uma das figuras mais fascinantes e terríveis da mitologia, trazendo à superfície aspectos sombrios, sentimentos intensos e talvez até, quem sabe, cruéis.

 

Seguindo a ideia dos heróis, que seriam semi-deuses, Medeia é uma princesa, filha do Rei da Cólquida e neta do deus sol Hélio. Ela é também sobrinha de Circe; aparece também como filha de Circe e Hermes e, ainda, irmã de Circe e filha de Hécate.

Na história de Medéia, ela apaixona-se pelo herói Jasão que chegou até a Cólquida para obter o Velocino de Ouro, sem o qual o mesmo não conseguiria voltar ao trono da Tessália. Ela promete ajuda-lo em sua empreitada com a condição que os dois se casem. Para obter o Velo de Ouro, Jasão precisa realizar uma série de tarefas, como lavrar um campo com dois touros gigantescos, de cascos de bronze e que expeliam fogo pelas narinas. Medeia deu-lhe um unguento para proteger a si e suas armas do fogo. A segunda tarefa consistia em semear um campo lavrado com dentes de um dragão. Dos dentes nasceu um exército de violentos guerreiros mas Jasão havia sido alertado por Medeia, que lhe aconselhou a jogar uma pedra no meio deles. Sem saber de onde veio a agressão, os soldados atacaram-se uns aos outros. Finalmente Jasão deveria matar um dragão insone que guardava o Velo. Medeia colocou a besta para dormir, utilizando poderosas ervas narcóticas. Jasão então tomou o Velo de Ouro e foi-se embora com Medeia, conforme prometido.

 

Peseguidos pelo pai de Medeia em sua volta para Cólquida, Medeia mata e esquarteja o próprio irmão, Apsirto; ela sabia que o pai iria recolher os restos do mesmo para dar-lhe um enterro digno, assegurando sua pós-vida eterna.

Chegando em Corinto, Jasão se apaixona pela filha do rei e abandona Medeia; segundo ele, não poderia deixar passar a chance de casar-se com uma princesa, sendo que Medéia era uma simples mulher bárbara. Apesar disso, ele diz que pretende unir as duas famílias, mantendo Medéia como sua amante (aqui vemos a ideia das cidadãs gregas ou Mélissai, caracterizadea por Gláucia, filha do Rei de Corinto, contra a ideia das Concubinas ou Pallakai que podiam ser estrangeiras ou ‘Metecas’, escravas ou mulheres livres). Ela lembra Jasão que deixou para trás sua família e salvou a vida dele diversas vezes; resolve vingar-se e envia um vestido e coroa envenenados para Gláucia, que morre junto com seu pai que tentou acudi-la. Não satisfeita, ela mata os próprios filhos que tivera com Jasão. Aqui temos o grande ato final, onde Jasão corre para vingar-se, mas tudo que vê é Medéia sendo elevada para as nuvens, numa carruagem enviada por seu avô Hélio, o sol. Ela ainda diz:

 

“Eu nem mesmo deixo-te os corpos dos nossos filhos; eu os levo comigo para enterrar. E para vós, que me fizeste todo mal, eu profetizo uma maldição final.”

 

 

 

 

 

Medéia ainda passa por muita coisa, mas em sua “saga” seus atos contra os filhos e irmão não são vingados. Ela ainda retorna para a Cólquida e ajuda seu pai a retomar o trono que havia sido tomado pelo tio.

 

Em uma sociedade que repudia os estrangeiros e limita as ações das mulheres, Medéia é uma figura revolucionária. Ela é uma mulher impetuosa, capaz de tomar as rédeas de seu destino e de influenciar até mesmo o destino dos que a rodeiam. Certamente a ascendência divina de Medéia lhe garantem esse direito; essa hybris só pode ter toda essa força em personagens heroicos e é notável como Medeia alia isso a um poder temível, subterrâneo e porque não, feminino. 

 

O mito de Medéia nos traz uma ruptura no conceito e tradição da mulher submissa, fraca e limitada ao oikos. Medéia é o poder e a resistência feminina, já na Antiguidade. É uma mestra habilidosa nas artes mágicas numa sociedade onde as mulheres transitavam entre a tutela de sogro e genro. Numa sociedade que marginalizava os estrangeiros, Medéia ascendeu no final; buscou liberdade e justiça para sua vida, mesmo que à sua maneira. Mesmo tendo executado ações que a fazem cruel aos nossos olhos modernos, Medeia, uma mulher inteligente, mostra de certa forma uma fortaleza feminina em tempos de repressão e desvalorização das mulheres; ela é um ponto importante de ruptura no pensamento sobre a figura subserviente da mulher naquela época, sendo, como já dito anteriormente, uma figura fascinante e complexa da mitologia grega.

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