Deus, ou seja, a Natureza: o filósofo Espinosa e o ocultismo

20/06/2018

 

Para simplificar, começarei com as diferenças entre as duas coisas, o que clarifica muito o restante de suas semelhanças. Espinosa deixava bem claro o quão se opunha à primeira forma do conhecimento: O conhecimento por ouvir dizer. Mesmo perante um grande mago, por exemplo, não se pode simplesmente confiar.  A soma de potências, na filosofia e em qualquer outra área do conhecimento, é o que garante integridade para o todo.
Também era oposto a toda forma de superstição, que ele considerava um conhecimento por ouvir dizer que se sustentava puramente na esperança. De acordo com a definição espinosana de esperança, que é uma paixão humana de espera pelo sucesso, sempre acompanhada de medo do fracasso. 

 

 
No tarot por exemplo, existem duas principais formas de leitura. 
1 - Uma é baseada na esperança, a pessoa lendo fomenta ocorrências que ela vai percebendo na vida do "cliente". A tal suposta "leitura do futuro". Essas coisas lidas podem vir a acontecer, ou não. O que importa é fomentar essa esperança.
2 - A segunda forma do tarot é semiótica. Ela se baseia em oferecer perspectivas totalmente novas sobre problemas com os quais a pessoa se depara, mas pouco sabe como agir. Essas perspectivas não são previsões, porém acabam se tornando previsões caso a pessoa decida utilizá-las para resolver esses problemas. É um mapa desenhado, e requer bastante reflexão para funcionar. 
A primeira forma é supersticiosa, fácil, descontraída. A segunda forma requer criatividade, é baseada na realidade, busca prover um novo contexto semiótico a dada situação. Olhando de uma nova forma, conhece-se um novo lado de um velho problema, que pode ajudar muito a resolvê-lo. E o mais curioso é que isso é um padrão para o qual o tarot foi desenvolvido, um padrão de estereótipos. 
Embora Espinosa nunca tenha escrito nada sobre tarot, e não desejo criar nenhuma suposição sobre se ele teria algo positivo a dizer, posso apenas realmente opinar que dentro da parte pragmática de sua filosofia, penso que cabe um viés criativo no uso das ferramentas mágicas. 
 

Dos sigilos

 

A arte do sigilo é muito próxima daquela do tarot. Assim como uma carta fornece um novo significado a uma situação, o sigilo é um jogo de cartas marcadas. Escolhe-se por si mesmo qual significado deseja impor a determinada situação, e alimenta o significado com força do pensamento. Em outro contexto, uma propaganda que você cria para si mesmo, para se convencer de uma forma de ver uma situação que pode ser realmente positiva para superar uma dificuldade.

 

Da divindade

 

Nenhum filósofo descrente se aproximou tanto de uma visão divina quanto Espinosa. Ele decidiu definir um conceito de Deus universal. Inegável, evidente por sua própria essência aparente: Deus sive natura. Do latim, Deus, ou seja, a natureza. Gaia, ou seja, a Terra. Urano, ou seja, o céu, o arco-íris, o universo além. Rá, ou seja, o sol. 
Todos os deuses teriam um espaço para veneração em uma sociedade espinosana. Ao mesmo tempo, nenhum iria se sobrepor sobre outro, pois no final, o todo é maior que a soma de suas partes, e o todo é a natureza, dotada de infinitos atributos infinitos, que Espinosa definiu dois: O intelecto, isso é, a soma do pensamento dos seres pensantes, a soma dos pensamentos possíveis em deus, e a Extensão, que é a soma da matéria, formas de energia, espaço. 


A única forma de rejeitar o deus espinosano seria uma explicação de um deus completamente insano. Por exemplo, talvez tudo seja apenas um sonho, e sabemos ainda menos do que achamos saber. Mas na falta de qualquer possível evidência disso, é mais produtivo considerar a lógica que podemos formar acerca do universo, do que um nonsense imaginativo. 
Por fim, a possibilidade de aplicar sobre a nossa própria existência um nonsense imaginativo, caso controlada para não se tornar um distúrbio, se chama criatividade, ou mesmo, magia. Magia, sem superstição, é uma arte poderosa que pode ser utilizada para mudar o mundo, por bem ou por mal. É por isso que incontáveis publicitários navegaram pela literatura do chamado Ocultismo.
 

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