O Inconsciente #1

24/01/2018

 

O que chamamos símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida cotidiana, embora, possua conotações especiais além do seu significado evidente e convencional. Implica alguma coisa vaga, desconhecida ou oculta para nós.

 

A citação acima, de Carl Gustav Jung, abre uma compilação de artigos sobre o Inconsciente e a natureza do Self. Jung analisou dezenas de milhares de sonhos. O produto de seu trabalho é um mapa sem fronteiras do Inconsciente humano.

 

Temos majoritariamente três tipos de memória: sensorial, trabalho e longo-prazo. Os estímulos que atingem nossos sentidos são retidos a curto prazo na memória sensorial. As informações relacionadas com o que estamos concentrados em fazer no momento são a nossa memória de trabalho. Depois de passar pelo filtro do sono, as memórias de curto-prazo são transferidas para a memória de longo-prazo.

 

Ao codificar nossas memórias, adicionamos marcadores como “primeiro beijo” ou “dia desagradável” - é a nossa maneira de sintetizar tanta informação. Contudo, diferente de registros feitos por uma câmera ou um gravador, nossas memórias não são um registro fiel da realidade. Além de distorções na própria percepção de certos fenômenos, cada vez que visitamos um evento em nossa memória, reforçamos a presença de certas memórias mais do que outras.

 

Lembramos com mais frequência de eventos que tiveram alta carga emocional, como o dia em que fomos premiados em um sorteio ou o término de um namoro. Mas essas memórias, esse mosaico de sensações, impressões e pensamentos se amalgamam no território difuso do Inconsciente.

 

Mais do que um depositário de informações meio esquecidas, o Inconsciente funciona como um super processador. Moendo e digerindo informações, ele pode responder a questões que não conseguimos solucionar com a mente Consciente.

 

Moro com minha irmã que possui oito gatos. Ela construiu um viveiro para os gatos esticarem as pernas no quintal de casa. Colocamos redes nas janelas dos quartos, para que os gatos pudessem nos ver sem entrarem nos quartos. Certo dia, sonhei que os gatos abriram um buraco na rede e invadiram meu quarto. No sonho, eu dava um tabefe nos gatos invasores e eles voltavam correndo para o viveiro. Contudo, do outro lado da rede, uma pantera negra me encarava e grunhia ameaçadora.

 

A interpretação do sonho é simples. Eu sei que sou um animal muito mais forte do que todos os gatos juntos. Sei que caso eu coloque minha força em jogo, eles não têm outra escolha senão correr de medo. Porém, a pantera que me encarava do outro lado da rede representa o instinto animal dos gatos. Ela não pode atravessar a rede e me atacar, mas eu não deixo de temer o instinto animal aprisionado e enterrado no convívio doméstico.

 

Três dias depois, eu volto pra casa do trabalho e encontro um gato sobre meu armário e um furo na rede. Meu inconsciente não estava apenas representando de forma simbólica a minha relação com os gatos de minha irmã, mas me alertando de um evento iminente.

 

Tal não implica - diretamente - que foi uma mensagem do além, sobrenatural, mística, um alerta dos amparadores espirituais sobre um evento com consequências tão pífias. É mais simples observar que o inconsciente computa informações periféricas à nossa percepção, processa tudo e nos devolve por meio de mensagens simbólicas, codificadas.

 

Não é de surpreender que a linguagem do Inconsciente seja tão confusa e ambígua para o olhar inexperiente. Por que nosso Inconsciente não escreve recados num caderno? Porque a linguagem das palavras é, infelizmente, tão limitada que priva até mesmo nossa cognição.

 

Nossa capacidade de pensar e entender o mundo é influenciado pelo nosso léxico linguístico. Conhecer mais palavras, não apenas facilita nosso acesso à informação, nos permitindo ler e compreender textos que antes não nos eram acessíveis, mas também facilita a manipulação de ideias dentro de um raciocínio.

 

Conhecer o conceito, por exemplo, de idiossincrasia, facilita pensar a respeito da relação sujeito-instituição. Quem domina o conceito de hominização, observa e pensa mais facilmente sobre o impacto das instituições culturais no processo de subjetivação dos jovens. Não são apenas palavras bonitas, são conceitos chaves que auxiliam a reflexão sobre certos assuntos. Palavras que resumem ideias são muito úteis, principalmente quando discutimos temas cujo uso excessivo de palavras só serve para atrasar o entendimento.

 

Símbolos são a forma mais refinada de linguagem que possuímos. Infinitamente mais compactos do que qualquer palavra-conceito, símbolos transmitem tantas mensagem quanto quisermos receber. Um monge ou esoterista pode passar a vida inteira refletindo sobre um mesmo Símbolo e sempre colher novos ensinamentos dele.

 

É por isso que uma máquina tão sofisticada quanto o Inconsciente opera por meio de uma linguagem tão eficiente e poderosa, que desafia até mesmo - e principalmente - as mentes mais racionais a interpretá-la: a linguagem dos Símbolos.

 

 

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